Dante
Eu não dirigia. Eu voava. A informação veio de uma câmera de trânsito esquecida na zona industrial. Uma van preta entrando num galpão abandonado. Joseph confirmou a placa. Eu não precisava de mais nada. Quando o carro derrapou na entrada do complexo, eu não esperei. Saltei com o fuzil na mão.
Meus homens vinham logo atrás, uma onda de destruição vestida de terno preto.
- Limpem o perímetro! - gritei. - Não deixem nada vivo lá fora!
Avançamos. A resistência foi patética. Três mercenários na porta. Três corpos no chão em menos de cinco segundos. Eu não parei para checar pulso. Eu pisei sobre eles. Chutei a porta de metal do galpão. O estrondo ecoou como um trovão. O cenário se abriu diante de mim.
Um galpão vasto, sujo, iluminado por feixes de luz que cortavam a poeira. Lá no fundo, a cena que faria meus pesadelos para sempre. Valentina estava amarrada em uma cadeira, o rosto inchado, sangue no canto da boca, lutando contra as cordas como um animal selvagem.
Ao lado dela, Beatrice. Ela segurava Vittoria com um braço e uma arma com o outro. Um mercenário enorme estava de guarda ao lado delas.
- Dante! - Valentina gritou quando me viu. - Cuidado com a Vittoria!
O mercenário levantou a arma para mim. Eu não diminuí o passo. Não busquei cobertura. A raiva me tornava blindado. Ele disparou. A bala raspou meu braço. Eu disparei de volta. Um tiro único. Cabeça. O homem caiu como uma torre demolida.
Parei a cinco metros delas. Minha arma apontada para o rosto de Beatrice.
- Acabou. - minha voz era um rosnado baixo, vibrando no peito. - Solta a minha filha.
Beatrice sorriu. Aquele sorriso quebrado, vidrado, que eu não reconhecia. Ela estava com os óculos escuros pendurados no decote, o cabelo impecável, como se estivesse em um chá da tarde no inferno.
- Você veio. - ela suspirou, ignorando a arma apontada para ela. - Eu sabia que viria. Você sempre vem para o que é seu.
Nesse momento, Valentina conseguiu soltar uma das mãos das cordas frouxas. Ela não pensou. Ela agiu. Valentina se lançou para frente, tentando alcançar Vittoria.
- NÃO! - Beatrice gritou, girando o corpo.
Ela apontou a arma para a cabeça da minha filha. Vittoria começou a chorar. Aquele choro fraco, desesperado, que gelou meu sangue.
- PARA TRÁS! - Beatrice berrou, a mão tremendo no gatilho. - OU EU ESTOURO A CABEÇA DELA!
- Valentina, recua! - ordenei, o pânico tomando conta. - Recua agora!
Valentina parou, as mãos erguidas, chorando.
- Por favor... - ela soluçou. - Beatrice, por favor... ela é um bebê...
Beatrice riu. Uma risada aguda, histérica, que ecoou pelas paredes de metal.
- Um bebê... o bebê que devia ser meu! - ela olhou para mim, os olhos brilhando de loucura. - Eu limpei o caminho para nós, Dante! Eu tirei a Lúcia! Tirei o meu marido! E você colocou essa... essa coisa no nosso meio!
- Me dá a menina. - dei um passo à frente, baixando a arma devagar para não assustá-la. - Me dá a Vittoria, Beatrice. Vamos resolver isso. Só nós dois.
Ela parou. Olhou para mim com uma esperança doentia.
- Só nós dois? - ela perguntou, num sussurro infantil.
- Só nós dois.
Ela olhou para a arma, depois para mim.
- Me beija.
O pedido me pegou de surpresa. O nojo subiu pela minha garganta.
- O quê?
- Me beija. - ela exigiu. - Me beija como se eu fosse a sua Rainha. Prove que você me ama. Se você me beijar... eu te dou a menina.
Olhei para Valentina. Ela estava pálida, os olhos arregalados de terror, alternando o olhar entre a arma e a cabeça da nossa filha. Olhei para Vittoria, chorando no braço da mulher que matou minha primeira esposa. Eu não tinha escolha.
- Tudo bem. - falei, engolindo a bile. - Mas com ela no meu colo. - Beatrice hesitou. - Passa a menina pra mim. - estendi os braços. - E eu serei seu.
O brilho nos olhos dela aumentou. A ilusão venceu a lógica.
- Promete?
- Prometo.
Ela se aproximou. Devagar. Ela estendeu Vittoria para mim. Peguei minha filha. O peso dela nos meus braços foi o único alívio que senti. Puxei-a contra meu peito, protegendo a cabeça dela com minha mão, criando uma barreira de carne e osso.
- Agora o beijo. - Beatrice cobrou, fechando os olhos, levantando o rosto, os lábios entreabertos esperando o triunfo.
Olhei para ela com todo o desprezo que existia no mundo. Inclinei-me. Encostei meus lábios nos dela. Foi frio. Foi morto. Foi como beijar um cadáver. Senti o corpo dela tentar se moldar ao meu, as mãos dela subindo para o meu pescoço. Não aguentei. O nojo foi visceral.
Empurrei-a para trás com força, limpando a boca com as costas da mão que segurava a arma.
- Você me dá nojo. - rosnei.
Beatrice cambaleou para trás. Ela abriu os olhos. A ilusão quebrou. Ela viu. Ela viu a verdade nua e crua no meu rosto. Viu que não havia amor, não havia gratidão, só havia ódio. O rosto dela se contorceu. A esperança virou fúria.

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