Valentina
O sábado à noite tinha cheiro de talco e expectativa. A mansão estava calma, uma calmaria rara, dourada. Na sala de estar, o cenário era de paz doméstica. Nico dormia no meu colo, pesado e quente, enquanto Vittoria estava no colo de Elisa, segurando o dedo dela com força.
Teresa organizava as roupinhas brancas de batismo no sofá, alisando as rendas como se fossem relíquias sagradas.
- Amanhã eles serão apresentados a Deus. - Teresa sussurrou, sorrindo. - Vão ser os anjos mais lindos de Florença.
Sorri, acariciando as costas do meu filho.
- Espero que Deus esteja preparado para o pulmão desse anjo aqui. - falei e todas rimos.
Foi nesse instante que a porta da frente se abriu. O ar mudou. A temperatura da sala caiu dez graus. Dante entrou. Mario veio logo atrás. Eles não traziam talco. Traziam a morte.
Dante estava sem o paletó. A camisa branca estava arregaçada até os cotovelos, e tanto o tecido quanto os antebraços estavam manchados de sangue escuro, seco. O rosto dele era uma máscara de pedra, os olhos cinzas vazios, focados em algo que só ele via.
Mario estava igual. Tenso. Sujo. Dante parou no meio da sala. Ele olhou para mim. Olhou para os filhos. Ele não se aproximou. Parecia ter medo de contaminar o ar puro que respirávamos com a sujeira que trazia da rua.
Ele não disse uma palavra. Apenas assentiu brevemente para nós e caminhou em direção à escada, os passos pesados, lentos. Mario trocou um olhar rápido com Teresa e subiu atrás dele, indo para a ala leste.
Sofia, que estava lendo num canto, largou o livro imediatamente e correu atrás do marido, a preocupação estampada no rosto. Fiquei ali, sentada, sentindo o coração apertar. O desejo de correr atrás dele gritava em mim, mas eu tinha Nico nos braços.
Teresa se aproximou suavemente.
- Me dê ele, ragazza. - ela estendeu os braços.
- Mas ele vai acordar... - hesitei.
- Não vai. E se acordar, a gente nina. - Teresa pegou Nico com firmeza. Ela olhou nos meus olhos, séria. - O Don precisa de você. Aquilo ali... aquilo é sangue de guerra. E só o amor limpa isso. Vai. Que a gente cuida.
Assenti, engolindo o nó na garganta. Dei um beijo na testa de Nico, depois na de Vittoria. Beijei a bochecha de Teresa e de Elisa.

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