Sofia
Os dias seguintes foram um borrão de sol, sal e lençóis bagunçados. Passeamos de barco, exploramos as grutas, comemos macarrão feito à mão em vilarejos minúsculos onde ninguém sabia quem era Mario Bernardi.
Mas havia uma sombra. Pequena. Quase imperceptível. Às vezes, quando Mario achava que eu estava dormindo na espreguiçadeira, eu via. Ele pegava o celular. Lia mensagens rápidas. O cenho franzia. O maxilar travava. Ele estava monitorando a guerra.
No último dia, estávamos arrumando as malas. O jato partiria em duas horas. O telefone dele tocou. Não era mensagem. Era ligação. Mario atendeu imediatamente.
- Fala. - A voz mudou. Ficou dura. Voz de Sottocapo.
Ele ouviu por um minuto inteiro. Eu parei de dobrar um vestido, sentindo o ar ficar pesado.
- Tem certeza? - Mario perguntou. - Absoluta? - ele insistiu, ficou em silêncio. - Entendido. Estamos voltando. Dobre a segurança na igreja. Ele desligou.
- O que foi? - perguntei, o medo gelado voltando a circular nas minhas veias. - Beatrice?
Mario me olhou. Ele tentou suavizar a expressão, mas eu conhecia meu marido agora. Eu conhecia o olhar da pedra.
- Uma pista. - ele disse, vindo até mim e segurando meus ombros. - Joseph interceptou uma comunicação. Parece que ela está se movendo.
- Para Florença? - perguntei.
- Talvez. - ele não quis confirmar, para não me assustar. - Mas não se preocupe. O Don já sabe. E nós estaremos prontos. - Ele beijou minha testa. - O batizado dos gêmeos é daqui a dois dias, Sofia. E nada, nem ninguém, vai estragar isso.
Assenti, abraçando-o. Mas enquanto ele me apertava, eu olhei para a janela, para o mar calmo. O silêncio tinha acabado. A lua de mel tinha terminado. E o grito... o grito estava prestes a começar.
Nossa viagem de volta foi silenciosa, mas um silêncio de mãos dadas. Quando os portões da mansão Vitale se abriram para nós, a sensação não foi de visita. Foi de retorno. Mario estacionou o carro e logo os seguranças vieram pegar as malas. Ele não soltou minha mão enquanto caminhávamos para a ala leste, que tinha sido reformada.
- Você sabe que o Dante e a Valentina não vão aceitar não como resposta, certo? - Mario comentou, abrindo a porta do nosso novo quarto. - Eles colocaram na cabeça que padrinhos não são visita de domingo. São mobília fixa.
Ri, entrando no quarto. Era enorme, decorado em tons de areia e azul, com uma vista privilegiada para o jardim dos fundos, longe da entrada principal.
- Mobília fixa? - brinquei, girando no meio do tapete. - Então eu sou o quê? Um abajur caro?
Mario fechou a porta e trancou. O clique da fechadura ecoou.
- Você é a luz da casa. - ele respondeu, sério, vindo até mim. - E o Dante diz que precisa do Sottocapo por perto. Que um braço direito que dorme do outro lado da cidade é um braço amputado. Mas a verdade, cuore mio... - ele me puxou pela cintura - ...é que eu não conseguiria dormir longe daqui. Não com a ameaça rondando.
Senti a tensão nos ombros dele. A "pedra" estava rígida novamente. Ele estava em modo de combate, mesmo dentro do quarto. Levei as mãos ao rosto dele, forçando-o a me olhar.
- Estamos em casa, amor. Estamos seguros.
Ele suspirou, fechando os olhos e encostando a testa na minha.
- Eu só vou relaxar quando a cabeça dela estiver numa bandeja.
- Eu sei. - sussurrei. - Mas agora... agora eu não quero a cabeça dela. Eu quero você.
Deslizei as mãos para a nuca dele, puxando-o para um beijo lento. Mario resistiu por um segundo, a mente ainda na guerra, mas logo cedeu. O beijo aprofundou. As mãos dele desceram para o meu quadril, apertando com força, me puxando contra o volume dele. Ele me ergueu e me sentou na cômoda de madeira maciça.
- Mario... - arfei quando ele se colocou entre as minhas pernas, o rosto enterrado no meu pescoço, aspirando meu cheiro como se fosse oxigênio.
- Eu preciso de você, amore mio. - ele rosnou contra a minha pele. - Preciso lembrar porque eu luto.
Ele não tirou minha roupa. Apenas levantou a saia do meu vestido. A mão dele, grande e calejada, subiu pela minha coxa, quente, possessiva, afastando o tecido da calcinha. Quando ele me tocou, eu gemi alto, jogando a cabeça para trás.
Mario não teve pressa. Ele me observava com uma adoração quase religiosa enquanto os dedos dele faziam mágica. Ele sabia exatamente onde tocar, o ritmo exato para me fazer esquecer de Beatrice, de Florença, de tudo.
- Isso... - ele sussurrou, beijando meu queixo enquanto eu tremia nos braços dele. - Deixa ir, piccola. Eu te seguro.
A tensão dele se transformou em foco. O foco no meu prazer. E quando o clímax veio, forte e avassalador, eu agarrei os ombros dele, gritando o nome do meu marido, sentindo que, naquele momento, éramos intocáveis. Ele me abraçou forte enquanto eu recuperava o fôlego, beijando minha têmpora, o coração dele batendo acelerado contra o meu peito.
- Obrigado. - ele sussurrou. Sorri, ajeitando o cabelo dele.
- Pelo que?
- Por me deixar te amar. - respondeu me dando um beijo lento, delicioso.
- Me ame o quanto quiser, desde que eu possa te amar na mesma intensidade.
Desci minha mão até seu volume, e o acariciei até ele perder o controle. Quando meu nome saiu de sua boca em um rosnado eu soube que agora estávamos quites. O ajudei se limpar e se arrumar.
- Agora vá. - falei. - Vá conversar com o Don. Vá ser o homem de pedra. Eu vou procurar as meninas.
Mario me beijou uma última vez, rápido e casto, e saiu. Respirei fundo, ajeitei o vestido no espelho, passei um batom e saí.
Encontrei o caos organizado na sala de estar íntima. A cena fez meu coração aquecer. Valentina estava sentada no sofá, com uma almofada de amamentação enorme no colo, parecendo exausta mas radiante. Teresa dobrava roupinhas numa velocidade industrial, e Elisa ninava Vittoria, que resmungava baixinho.

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