Valentina
Voltar a viver dói.
A primeira coisa que senti não foi a luz, foi a garganta. Não era apenas sede. Era uma dor crua, interna, como se alguém tivesse enfiado vidro goela abaixo e puxado de volta. Tentei engolir e meu corpo reagiu com um espasmo de dor.
O peso nas minhas pálpebras parecia chumbo.
Abri os olhos. O mundo estava borrado, branco e cinza. O som rítmico de uma máquina preenchia o silêncio, o mesmo som que ouvi antes de tudo apagar.
Pisquei uma, duas vezes, tentando focar.
- Ela acordou.
A voz não era de médico. Era rouca, quebrada, a voz de alguém que gritou para o abismo até perder o som.
Senti uma mão na minha. Grande. Quente. Minha âncora.
Virei o rosto devagar. O movimento fez minha cabeça girar, resquício da tempestade que varreu meu cérebro.
Dante estava sentado ao lado da cama. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma noite. A barba estava por fazer, a camisa amassada, os olhos cinzas fundos, cercados de sombras roxas.
- Dante... - tentei falar, mas minha voz falhou. Saiu apenas um chiado rouco, doloroso.
Ele se levantou rápido, pegando um copo com água e um canudo, levando aos meus lábios com cuidado extremo.
- Devagar, amore. - ele sussurrou. - Sua garganta... eles tiveram que colocar um tubo para você respirar. Você machucou as cordas vocais.
Bebi a água, sentindo o alívio imediato, mas a memória bateu forte. O tubo. A falta de ar. A escuridão.
Ele afastou o copo e levou a mão ao meu rosto, o polegar roçando minha bochecha com uma delicadeza trêmula, como se conferisse se eu era real.
- Eu estou aqui, mia vita. - ele disse, a voz embargada. - Eu estou aqui.
- O que... aconteceu? - consegui sussurrar, a voz saindo como lixa.
- Você me assustou. - ele respondeu, e vi uma lágrima solitária escorrer pelo rosto do Don, algo que eu nunca pensei ver. - Você decidiu parar o mundo por dois minutos. O médico disse que seu coração parou. Mas eu te obriguei a voltar.
Meu coração disparou no peito, o monitor ao lado acelerou o bipe. Levei a mão à barriga num reflexo de pânico.
Vazia.
O terror me atingiu como um soco físico. Tentei me levantar, ignorando a tontura.
- Os bebês... - agarrei o braço dele. - Dante, onde eles estão? A menina... ela não chorou... eu lembro do silêncio...
- Calma. - ele segurou meus ombros, mantendo-me deitada com firmeza. - Eles estão bem. Estão na UTI Neonatal. Vivos. Os dois.
- Eu quero ver. - exigi, as lágrimas começando a cair. - Eu preciso ver.
- Você não pode andar ainda.
- Então me carregue. - encarei-o. - Me leve até meus filhos, Dante. Ou eu vou me arrastar até lá.
Ele me olhou por um segundo, avaliando minha teimosia. Depois assentiu.
- Eu te levo.
Ele chamou uma enfermeira, conseguiu uma cadeira de rodas. Dante me levantou da cama como se eu fosse feita de vidro, ignorando os protestos do médico que entrou no quarto.
O caminho até a UTI foi silencioso. Eu segurava a mão dele, precisando do calor para acreditar que estávamos vivos. Quando entramos na sala com luzes baixas e bipes rítmicos, meu coração parou de novo, mas dessa vez, de amor.
Dante empurrou a cadeira até a primeira incubadora. Nicolau. Ele era grande para um prematuro de oito meses. Mexia os braços e as pernas, a pele avermelhada, o cenho franzido como se estivesse irritado com o mundo.
- Ele tem a sua braveza. - sussurrei, tocando o vidro.
- Ele gritou mais alto que eu quando nasceu. - Dante comentou, um meio sorriso surgindo. Depois fomos para a segunda incubadora.
Vittoria.
O ar saiu dos meus pulmões. Ela era minúscula. Metade do tamanho do irmão. Estava cheia de fios, tubos, sensores. O peito subia e descia num ritmo frenético, ajudado pelas máquinas. Mas ela estava ali.
- O coração dela... - perguntei, com medo da resposta.
- É valente. - Dante respondeu, apoiando a mão no meu ombro. - Ela parou, Valentina. Mas voltou. Ela decidiu ficar.
Chorei, encostando a testa no vidro morno.
- Oi, minha princesa... - sussurrei. - A mamãe está aqui. Nós vamos lutar com você.
Dante se abaixou ao lado da minha cadeira, abraçando minha cintura, olhando para a nossa filha com uma devoção feroz.
- Eu prometi. - ele disse. - Eu comprei uma vida. Ganhei três. E não vou devolver nenhuma.
Sorri para suas palavras, olhei para os meus filhos.
Alguns meses atrás, pensei ter perdido minha vida, quando na verdade eu a estava encontrando...
Três vidas... eu não perdi a minha, só ganhei mais duas.
*** Três meses depois. ***
O jardim da mansão em Florença estava irreconhecível. Onde antes havia apenas segurança e cascalho, agora havia flores brancas, arcos de hera e cadeiras douradas alinhadas sob o sol suave da primavera.
Eu estava de pé na varanda, observando. Minha recuperação tinha sido lenta, mas constante. A casa agora tinha o som que Dante previu: choro, risadas e a correria de Teresa e Elisa.
Nico já era um pequeno tanque de guerra, forte e faminto. Vittoria... Vittoria ainda exigia cuidados, monitoramento constante, mas cada dia era uma vitória, honrando seu nome.

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