Valentina
Travei ao vê-lo.
Dante não andava, ocupava o espaço. O terno e camisa pretos, a luz de fim de tarde recortando os ombros largos, e o relógio prateado que denuncia cada gesto.
Os olhos dele encontraram os meus, depois me mediu de cima a baixo. Não foi de forma vulgar. Foi... metódico. Uma leitura. Eu deveria me irritar. Em vez disso, sinto paz na irritação.
Que tipo de bruxaria é essa?
Ele se aproximou até uma distância educada, ou calculada, levantou a mão sem tocar. Depois, recuou meio centímetro, como se lembrasse de uma lei que só ele assinou.
— O corredor está frio. — disse, seco — Leve isto.
Estendeu um xale. Lã fina, cinza-escuro, cheiro limpo de armário conservado.
— Obrigada pelo chá e pelos livros que eu não pedi. — respondi, encaixando os olhos nos dele.
— Não faço gentilezas. — a voz veio limpa, gelada. — Faço gestão.
— Da minha saúde... ou da sua consciência? — perguntei, arqueando as sobrancelhas. Um quase sorriso tenta nascer no canto da boca dele. Ele o mata antes do primeiro suspiro.
— Não confunda meu método com culpa.
— Eu confundo com medo.
— Medo é útil. — Ele colocou o xale nos meus ombros sem encostar na pele. — Não piore a temperatura das coisas.
Pensei em dizer "e a sua temperatura?", mas engoli. Ele se virou, e... se foi. Deixando o xale, seu cheiro e uma linha invisível amarrando meu peito a esse corredor.
Encostei o queixo no tecido macio. É um cuidado que não sabe se chamar cuidado. E é por isso que machuca tanto.
Voltei para dentro, fui até a mesa novamente. Guardei a partitura dentro do livro, como quem oculta um segredo dentro de outro. Peguei um dos livros, olhei para ver se Teresa estava por perto, mas nada. Então comecei a caminhar.
O relógio da parede batia horas redondas que eu não queria contar. Eu deveria descer para o jantar. Eu deveria evitar corredores que não conheço.
Mas... eu não desço, não evito.
Saí pelo lado oposto. A biblioteca tem uma porta menor que dá para um corredor estreito, e o corredor estreito desemboca na ala sul. O ar muda de cheiro, menos cera, mais pedra. Mais história.
Lembrei dos avisos dele:
— "Não entre."
Lembro da minha resposta:
— "E se eu entrar?"
O corredor terminava numa antessala de teto baixo. Uma janela pequena que deixa entrar apenas um fio de luz. No canto, um cabideiro antigo com um véu de renda pendendo como uma teia. Me aproximei. Não é véu. É um pedaço de tule escuro, muito fino, florzinhas bordadas.
Luto...
Luto pendurado. Luto esquecido. Luto que ninguém teve coragem de jogar fora.
Eu entendo bem como é isso...
Virei e vi... um retrato grande, virado para a parede. A moldura bonita demais para ficar escondida.
Fiz o que sempre faço: desobedeci.
Apoiei os dedos na madeira, puxei um pouco, o peso gemeu. Não consegui virar sozinha, mas tentei mais uma vez... inútil.
— Senhorita... — A voz me fez girar. Uma funcionária que eu nunca vi, olhos muito abertos, as mãos trêmulas. Ela era uma senhora, pele fina, cabelos presos num coque.
— Aqui não. Por favor.
— O retrato, de quem é? É da "L"? — Soltei, sem rodeios.

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