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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 11

Valentina

Jurei que não deixaria nenhum homem reescrever meu corpo. Então por que, quando fecho os olhos, é a boca dele que eu lembro primeiro?

O beijo ainda arde onde eu tentei negar. E a negação... é só uma palavra elegante para covardia.

Encostei a testa na madeira fria da porta do meu quarto. Respirei. Contei até cinco. Até dez. Não adianta. A memória volta sozinha, indesejada e quente, ocupando cada espaço que deveria ser meu. A sensação das mãos dele no meu rosto. A dureza contida do corpo dele quando me prensou contra a pedra do arco. O gosto de perigo que a língua dele deixou na minha boca.

Meu coração foi sequestrado antes do meu corpo. Não quero admitir. Mas o corpo já escolheu um lado.

Levantei devagar. Me olhei no espelho. Não sou mais a mesma garota que entrou aqui. Tenho os olhos mais escuros, a boca mais atenta, a pele com uma lembrança que não some na água. Meu vestido simples, o cabelo solto, e mesmo assim, pareço pronta para uma guerra que ninguém escreveu para mim.

— Eu sou o que eu digo que sou — murmurei para o reflexo. A minha voz agora tremia menos do que antes.

E lutei, mas as imagens teimam em nascer... o jeito como ele me olhou quando me viu chorando; o quase toque no meu rosto; o recuo. O recuo me feriu mais do que o toque poderia. E ainda assim... quando ele se aproximou hoje e me beijou de novo, foi como se eu tivesse um nome novo por dentro.

Se o ódio me protegia, por que estar perto dele me parece... segurança?

— Ahhh, que raiva de mim! — bati com a escova na penteadeira para não bater em mim. — Não vou ser tola. Não vou ser fácil. Não vou ser barriga de ninguém! — continuei dizendo como um mantra para ver se entrava na minha cabeça, até que pulei no susto ao ouvir batidas na porta.

— Senhorita Rojas? — Teresa me chamou, sempre uma sílaba antes do tom brando.

— Entre. — respondi.

Ela entrou com uma bandeja. Uma xícara fumegando, cor de âmbar, cheiro doce-amargo.

— Infusão de erva-doce com camomila. — disse — Para acalmar o estômago... e outras coisas. — Sorri de canto.

— "Outras coisas" têm nome, Teresa?

— Têm muitos, menina. Aqui dentro, chamamos de silêncio. — Ela pousou a xícara na mesa e me observou com a paciência de quem já viu tempestades.

— Quer ir à biblioteca? O senhor autorizou.

— "Autorizou" ou "planejou"? — ela me olhou, mas não negou.

— Às vezes, quem não sabe falar... fala por sinais. — Bebi o chá, sentindo o líquido quente descer e organizar meus ossos, e meus pensamentos junto da frase de Teresa.

"Quem não sabe falar, fala por sinais."

Será?

Acabei minha bebida e a coloquei de lado, e com um sorriso disse a ela.

— Tudo bem então, vamos lá.

Seguimos em silêncio, dessa vez me atentei mais aos detalhes do lugar. Passamos pela porta e o cheiro de livros antigos e madeira encerada tomou conta das minhas narinas. A biblioteca é vasta sem ser fria. O piano de cauda dorme num canto, polido demais, como se alguém o visitasse com as mãos e com o pano de vez em quando.

Meus olhos foram até a mesa, e sobre ela havia três livros já separados, amarrados por um cordão fino e dourado. Me aproximei e um sorriso brincou nos meus lábios. Eu não pedi. Mas estão aqui. E são exatamente o tipo de leitura que eu escolheria.

Peguei o primeiro, abri, um marcador caiu. Mas não era um marcador qualquer, mas uma folha de partitura cuidadosamente dobrada. A borda tem uma inscrição em tinta marrom, antiga. Eu reconheço as letras, pouco mais que um sussurro escrito:

"Alla L., per l'unico inverno che ebbi." (À L., pelo único inverno que tive.)

— Quem é L.? - perguntei para o ar, e o ar me devolveu poeira nas mãos.

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