Dante
A guerra sempre foi o meu idioma.
Eu sei ler o silêncio antes de uma emboscada. Sei identificar o cheiro de pólvora e medo. Sei como estancar sangue e como tirar uma vida. Mas nada, absolutamente nada no meu arsenal de Don, me preparou para ver a mulher que eu amo ser rasgada ao meio para dar à luz.
Eram três da manhã quando a bolsa estourou. Não foi como nos filmes. Foi silencioso, líquido, seguido por um gemido que me acordou como um tiro ao lado do ouvido. Agora, horas depois, o quarto principal tinha se transformado em uma UTI improvisada de alta tecnologia.
A Doutora Chiara comandava o espaço com a autoridade de um general. Havia monitores sobre a cômoda, conectados a cintas elásticas ao redor da barriga de Valentina, desenhando gráficos luminosos e enchendo o quarto com o som amplificado e rápido dos corações dos meus filhos.
Tu-dum, tu-dum, tu-dum. Aquele som era a única música que importava.
Valentina gritou novamente. O som entrou pelos meus ouvidos e arranhou minha alma. Eu estava ajoelhado ao lado da cama, segurando a mão dela com tanta força que meus dedos estavam brancos.
- Dante... - ela choramingou, suada, o cabelo grudado na testa, o rosto vermelho de esforço. - Eu não consigo... dói muito...
- Consegue, amore mio. - sussurrei, beijando a mão dela, sentindo meu próprio coração falhar.
- Você é a mulher mais forte que eu conheço. Você derrubou um Don, Valentina. Isso não é nada pra você.
Ela apertou minha mão, cravando as unhas.
- Eu te odeio agora. - ela rosnou, entre dentes.
- Pode odiar. - respondi, desesperado. - Me odeie o quanto quiser amor, só não para.
A doutora Chiara checou o monitor e depois olhou entre as pernas de Valentina.
- A dilatação está completa, Don. O primeiro está coroando. Na próxima contração, eu preciso que ela empurre com tudo.
Olhei para Valentina. Ela estava exausta. Oito meses de tensão, sequestros e medo estavam cobrando o preço agora.
- Eu não tenho força... - ela sussurrou, fechando os olhos.
O pânico subiu pela minha garganta. Senti uma mão no meu ombro. Firme. Pesada. Virei o rosto.
Teresa.
Ela não me olhava com pena. Ela me olhava com aquela sabedoria antiga, de quem já viu gerações nascerem e morrerem naquela casa.
- Saia da frente da luz dela, Don. - Teresa disse, baixo.
- Eu não vou sair daqui. - rosnei.
- Não disse para sair do quarto. Disse para sair da frente do medo. - Teresa apertou meu ombro. - Ela sente o seu pavor. E ela precisa da sua rocha.
- Ela está sofrendo, Teresa. - Minha voz falhou.
- A dor do parto não é sofrimento, filho. - Teresa disse, com uma calma que me desarmou. - É a dobradiça do portão da vida rangendo para abrir. É pesado. É barulhento. Mas é sagrado. Engula o seu medo. Dê a ela a sua força.
Respirei fundo. O ar entrou trêmulo e saiu firme. Voltei para Valentina.
- Mia vita. - chamei. Ela abriu os olhos. - Olha pra mim. - ordenei, suave. - Nós fizemos isso juntos. Nós vamos terminar juntos. Empurra. Por mim. Por eles.
A contração veio. O monitor acusou o pico. Valentina gritou, um som gutural, primitivo, e empurrou. Eu segurei as costas dela, servindo de apoio.
- Mais uma vez! - Chiara comandou. - Já estou vendo a cabeça!
Valentina empurrou. E então, o mundo parou. Um choro. Forte. Irritado. Alto. Nicolau veio ao mundo berrando, vermelho, coberto de vida. Chiara o segurou, limpando o rosto dele rapidamente antes de colocá-lo sobre o peito de Valentina.
Eu paralisei. Ele era pequeno. Perfeito. E gritava com a força de um gigante.
- É o menino... - A médica disse. Valentina chorou, rindo, tocando as costas dele.
- Dante... é o Nico. - Toquei a cabeça dele com um dedo, com medo de quebrá-lo.
- Nicolau. - sussurrei. - Meu herdeiro.
O alívio foi tão grande que minhas pernas tremeram. Acabou. O pior passou. Mas então, o som no quarto mudou. O tu-dum, tu-dum rápido que vinha do monitor sofreu uma alteração brusca. Começou a desacelerar. Bip... bip...... bip......... Um alarme agudo disparou na máquina.
- Dante! - a voz de Chiara cortou o momento como uma navalha. Não era voz de celebração. Era voz de pânico controlado. - O segundo. Agora.
Olhei para a médica. Ela encarava a tela do monitor com terror.
- O que foi? - perguntei desesperado.

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