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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 118

Valentina

O tempo tem uma forma curiosa de se mover quando a gente espera.

Às vezes ele corre, como nos dias em que o outono decidiu varrer as folhas de Florença e pintar o jardim de ocre e dourado. Outras vezes ele se arrasta, pesado e lento, como a minha própria respiração ao tentar subir as escadas.

Meses se passaram. Oitavo mês.

Minha barriga tinha deixado de ser uma curva discreta para se tornar o centro de gravidade da casa. Eu me sentia imensa. Meus pés inchavam, minhas costas reclamavam em línguas antigas e levantar da cama exigia uma logística que fazia Dante rir até eu ameaçar greve de silêncio.

Estava no quarto dos gêmeos, dobrando pela terceira vez um macacão amarelo que parecia pequeno demais para conter uma vida.

- Licença para a cavalaria pesada. - a voz de Teresa veio da porta, seguida pelo cheiro inconfundível de sálvia e manteiga.

Me virei devagar, apoiando a mão na lombar. Teresa entrou marchando, bandeja em punho, e Elisa vinha logo atrás, com aquela cara de quem carrega segredos de estado e toalhas limpas.

- Lembrete da gerência - Teresa ergueu o queixo, me analisando de cima a baixo como quem procura defeito em costura: - grávidas de oito meses não podem viver de ar, teimosia e dobras de roupa. Hoje temos creme de abóbora cabotiá com gengibre para o enjoo que você finge que não tem, e iscas de filé que Elisa jurou que estão no ponto certo.

- Eu não estou com enjoo. - menti, mas minha boca salivou com o cheiro.

- Está com cara de quem comeu vento no café da manhã. - Teresa nunca recua de suas próprias verdades. - E vento não sustenta dois Vitale. Sente-se, ragazza. Antes que seus tornozelos entrem em greve contra você.

Obedeci, sentando na poltrona de amamentação. Elisa ajeitou a bandeja no meu colo com uma eficiência militar.

- O Don ligou às quatro e meia. - Elisa informou, cruzando os braços. - Perguntou se a senhora tinha descansado. Eu disse que a senhora estava "em atividade de ninho".

- "Atividade de ninho"? - ri, soprando a fumaça da sopa.

- É termo técnico. - Elisa deu de ombros, séria. - Significa mexer em coisas que já estão arrumadas só para acalmar a ansiedade. Ele riu. E disse que o retorno seria... - ela olhou para Teresa, buscando a palavra.

- "Iminente". - Teresa completou, estalando a língua. - Palavra de homem que quer dizer "já estou indo, mas o trânsito e o crime não colaboram".

- "Iminente" é melhor que "incerto". - ponderei, levando a colher à boca. O creme estava divino. A casa suspirou agradecida, ou talvez fosse eu.

- Coma tudo. - Teresa ordenou, mas a voz era macia. - Você precisa de força. E eles... - ela apontou para a barriga - ...precisam de calibração.

- Eles chutam como se jogassem futebol lá dentro. - comentei.

- Sinal de saúde. - Elisa decretou. - E de gênio forte. O que não é surpresa, considerando o pai e a mãe.

Comemos ali, naquele meio tempo suspenso entre o dia e a noite. Conversamos bobagens úteis: se a cortina nova bloqueava luz demais (bloqueava), se o Senador Moretti estava queimando no mármore do inferno (Teresa garantiu que sim, e que ela rezava para o fogo ser alto).

Quando terminei, o som de cascalho sendo esmagado por pneus pesados veio do jardim.

Nós três paramos.

Teresa pegou a bandeja vazia. Elisa foi até a janela e espiou pela fresta.

- O carro preto. - ela confirmou. - E o Mario no de trás. O "iminente" chegou.

Elisa se virou para mim.

- Vou preparar o banho dele. A água quente ajuda a tirar o peso do mundo. - ela disse, e saiu. Não é bajulação, é pacto. Ela sabe que quando Dante volta, ele traz a guerra na pele.

Teresa me olhou uma última vez.

- Vá recebê-lo. Mas devagar na escada. Se você tropeçar, eu enfarto, e quem vai cozinhar amanhã?

Ri e me levantei.

Esperei no topo da escada. Quando Dante subiu, tirando o paletó, os ombros pareciam carregar o peso de Florença inteira. Mas assim que me viu, a expressão dura suavizou. As linhas de tensão ao redor dos olhos cederam, como se a simples visão de mim fosse o código para desarmar a bomba.

- Você devia estar descansando. - ele disse, subindo os últimos degraus e vindo até mim.

- Eu estava sendo alimentada à força pelo meu exército pessoal. - respondi, passando os braços pelo pescoço dele. - E esperando meu marido.

Ele me beijou. Um beijo lento, cansado, com gosto de tabaco e devoção.

- Você é teimosa. - murmurou contra minha boca.

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