Dante
Há muitas formas de matar um homem.
Você pode usar uma bala, e é rápido.
Pode usar uma lâmina, e é pessoal.
Pode usar as mãos, e é visceral.
Mas quando o homem é um político, um ser feito de vaidade, mentiras e ternos caros, a morte física é misericórdia. Para destruir um homem como o Senador Moretti, primeiro você precisa tirar a única coisa que ele ama mais do que o próprio reflexo: o nome.
Eu me vesti para o funeral dele. Terno preto, corte italiano impecável, abotoaduras de ônix. Nenhuma arma visível. A arma hoje não era de chumbo. Era de dados.
Desci as escadas da mansão. Valentina estava na biblioteca, lendo, ou fingindo ler sob a vigilância de quatro homens. Quando entrei, ela levantou os olhos. Havia preocupação neles, mas não medo.
Ela sabe bem com quem foi que ela decidiu passar o resto da vida.
Caminhei até ela, beijei o topo da sua cabeça e sussurrei:
- Não me espera acordada. - Ela segurou minha mão por um segundo.
- O que você vai fazer?
- Vou tirar o lixo de Florença. - respondi.
- Dante... - ela começou mas a interrompi com um beijo, um daqueles que diz mais do que qualquer palavra diria.
- Está tudo bem mia vita. - ela me encarou por alguns segundos, passou a mão no meu rosto e me puxou para mais um beijo.
- Eu te amo... - murmurou com a boca ainda na minha.
- Te amo mais. - respondi e me despedi.
A noite estava quente, mas o ar dentro do carro blindado era gelado. Mario estava ao meu lado, verificando o tablet pela última vez. A expressão dele estava melhor agora que Sofia estava completamente recuperada.
- Tudo pronto, Don. - ele informou. - A imprensa está no local. Os áudios foram distribuídos para os servidores seguros. Os dossiês fiscais estão na mão do procurador-geral, que coincidentemente também está na festa.
Sorri. Não havia humor. Apenas a satisfação mecânica de ver uma engrenagem girar para esmagar um dedo.
- O momento? - perguntei.
- Ao seu sinal. - assenti.
O evento era no Palazzo Corsini. O tipo de festa onde a elite de Florença se reúne para beber champanhe caro e fingir que não tem sangue nas mãos. Lustres de cristal, música clássica ao vivo, risadas polidas.
O carro parou. Desci. A entrada parou. Não porque eu gritei. Não porque eu empurrei. Mas porque o poder tem uma frequência. E quando eu entro num lugar, eu mudo a vibração do ambiente.
Os flashes dos fotógrafos estalaram, cegantes, mas eu não parei. Caminhei direto para o salão principal, meus homens abrindo caminho como se cortassem água.
Vi Moretti quase imediatamente. Ele estava no centro de uma roda, segurando uma taça, rindo alto com a cabeça inclinada para trás. Parecia um rei em seu castelo. Um homem que achava que o desaparecimento de Beatrice e o silêncio de Carmella o tinham deixado seguro.
Tolo.
O silêncio não protege. O silêncio acumula.
Avancei. As pessoas notaram. O círculo ao redor dele se abriu instintivamente, como animais menores sentindo a chegada do predador. O riso de Moretti morreu na garganta quando seus olhos encontraram os meus.
Ele empalideceu. Mas Moretti é político. Ele tentou recuperar a máscara.
- Don Vitale... - ele disse, abrindo os braços num gesto falso de acolhimento. - Que surpresa vê-lo aqui. Pensei que estivesse em Londres.
Parei a dois passos dele. Perto o suficiente para ele sentir o frio que eu trouxe comigo.
- Eu voltei, Senador. - minha voz saiu baixa, mas projetada para ser ouvida por quem importava. - Porque descobri que havia coisas sujas demais na minha cidade. E eu sou um homem que gosta de limpeza.
O sorriso dele tremeu.

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