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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 115

Dante

Florença tem um cheiro diferente. Londres cheira a chuva, asfalto e segredos sussurrados em corredores frios. Florença cheira a pedra antiga, a cipreste e a sol que queima sem pedir licença.

Mas, para mim, hoje ela tinha outro cheiro.

Cheiro de território reconquistado.

O jato tocou o solo italiano e eu senti, fisicamente, o peso da armadura mudar de lugar. Em Londres, eu era um invasor tentando proteger o que é meu em terra estrangeira. Aqui, eu sou a lei.

Entramos na mansão em silêncio. Não o silêncio pesado do hospital, mas aquele silêncio de igreja depois da missa. Respeitoso. Seguro. Valentina caminhava ao meu lado, a mão entrelaçada na minha com força. Ela estava exausta, eu via na curva dos ombros, no passo um pouco mais lento. Mas a cabeça... a cabeça estava erguida.

Minha mulher não se curva nem para o cansaço.

Subimos as escadas devagar. Quando entramos no nosso quarto, o ar parecia ter parado no tempo, nos esperando voltar. O cheiro dela estava ali, impregnado nos lençóis, nas cortinas. Ela soltou minha mão e foi até a janela, olhando para o jardim.

- Acabou? - ela perguntou, sem se virar. Caminhei até ela, parando nas suas costas, e envolvi sua cintura com meus braços, apoiando o queixo no ombro dela. Minhas mãos foram direto para o ventre, onde meus filhos repousavam, alheios à guerra que quase os tocou.

- A tempestade ficou em Londres, mia vita. - murmurei contra a pele do pescoço dela. - Aqui, as paredes são minhas. O chão é meu. E o céu só abre se eu permitir.

Ela virou o rosto, encontrando meus olhos.

- Você fala como se fosse Deus. - ela brincou, mas o sorriso era fraco.

- Não sou Deus. - respondi, sério. - Deus perdoa. Eu cobro.

Valentina suspirou e se virou nos meus braços, enterrando o rosto no meu peito.

- Eu só quero paz, Dante. Só por um dia.

- Você vai ter. - prometi. - O mundo lá fora não existe agora. Só existe isso aqui.

Peguei-a no colo. Ela não protestou. Acomodou-se em mim como se eu fosse o único alicerce capaz de sustentá-la. Deitei-a na cama, tirando os sapatos dela, cobrindo-a com o lençol fresco. Fiquei sentado na beirada, acariciando o rosto dela.

- Você é o meu porto, Dante. - ela sussurrou, os olhos fechando devagar. - Mesmo quando você é tempestade para os outros. - Sorri de canto.

- E você é a única âncora que me impede de virar naufrágio. - respondi. - Dorme. Quando você acordar, o mundo vai estar mais limpo.

Esperei até a respiração dela pesar. Até ter certeza de que o sono a tinha levado para um lugar onde Beatrice e bombas não existiam. Então, eu me levantei. E no momento em que soltei a mão dela, o marido ficou no quarto. Quem saiu pela porta e desceu as escadas foi o Don.

Mario me esperava no escritório. A porta estava aberta. Joseph estava lá também. O clima na sala era denso, carregado de fumaça de charuto e de sentenças de morte. Entrei e fechei a porta.

- O Senador Moretti. - falei, sem preâmbulos. - Eu quero tudo.

Mario desencostou da mesa.

- Já começamos, Don. As conexões dele com o consórcio em Londres são profundas. Ele lavou dinheiro para a campanha através das empresas de fachada da Beatrice.

- Eu não quero só prender o dinheiro. - caminhei até a minha cadeira, sentando como quem assume o trono para ditar o fim de um reinado. - Eu quero expor a sujeira. Quero que a Itália inteira veja quem ele é antes de eu arrancar o coração dele.

- Temos gravações. - Joseph interveio. - Conversas dele com a Beatrice. Ordens de facilitação para transporte de carga ilegal. E... uma ligação onde ele ri da morte do Alessandro Ferrara.

Sorri. Um sorriso frio.

- Ótimo. Vazem isso. - ordenei. - Vazem para a imprensa, para a oposição, para a igreja. Quero o nome Moretti na lama até o meio-dia de amanhã. Quero que ele sinta o poder esfarelar nas mãos antes de sentir a minha lâmina.

- E a Beatrice? - Mario perguntou.

- Beatrice virou fumaça. - respondi, girando o anel no dedo. - Mas fumaça sempre deixa rastro. Continuem cavando. Ela vai cometer um erro. O orgulho dela é maior que a inteligência.

Estávamos discutindo a logística de desmantelar o consórcio quando o interfone da segurança tocou. Joseph atendeu. Ouviu por alguns segundos e franziu a testa.

- Don. - ele disse, cobrindo o bocal. - Temos um problema no portão principal.

- Imprensa? - perguntei, irritado.

- Não. - Joseph negou. - É o filho do Senador. Giovanni Moretti.

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