Mario
Eu sempre fui um homem de estrutura. Meu mundo era feito de linhas retas: ordens, execução, lealdade. Eu entendia hierarquia. Entendia silêncio. Entendia que minha vida pertencia à Famiglia e que meu coração batia no mesmo ritmo que o do Don.
Eu olhava para Dante e Valentina e admirava, sim. Mas também achava... caótico. Perigoso. Eu pensava: como um homem pode colocar o mundo inteiro em risco por causa de um par de olhos?
Hoje eu sei.
Eu sei porque passei as últimas doze horas sentado numa cadeira de plástico duro, olhando para um monitor cardíaco, rezando para um Deus que eu raramente incomodo, pedindo que ele não levasse a mulher que ensinou a minha pedra a ter pulsação.
Quando vi Sofia naquela maca, pálida, lutando para puxar o ar, a estrutura do meu mundo ruiu. Não sobraram linhas retas. Sobrou apenas medo. Um medo frio, líquido, que me fez entender, com a violência de um tiro, o que Dante sente todos os dias, que...
Amar não é fraqueza. É a única coisa que faz a guerra valer a pena.
A porta do corredor se abriu e Dante apareceu. Valentina estava com ele, linda, viva, mas com aquela aura de quem também sobreviveu ao inferno. Dante caminhou até mim. O olhar dele era diferente hoje. Não era o olhar do Don para o Sottocapo. Era o olhar de um homem que sabe exatamente onde eu estive nas últimas horas.
- Don. Senhora. - Cumprimentei.
- Como ela está? - Valentina perguntou ansiosa.
- Reclamando. O médico disse que a recuperação está sendo ótima. Já tiraram o oxigênio.
- Posso entrar?
- Deve. Ela perguntou de você três vezes.
- Vai lá, amore. - Don disse a ela. - Eu preciso ter uma palavra com meu Sottocapo.
Eu sabia bem qual era a conversa.
- Não demorem. - Ela ordenou e o Don somente sorriu assentindo.
Ficamos lado a lado, encostados na parede, enquanto Valentina entrava no quarto.
- Florença nos espera. - Dante disse, baixo, voz de planejamento. - Assim que os médicos liberarem a Sofia, nós voamos.
- Eu vou precisar de segurança extra para o transporte dela. - respondi, o modo operacional ativando automático. - Não quero riscos.
- Você terá. - Dante garantiu. - Joseph já está organizando. E Mario... Ele virou o rosto para mim. - Beatrice e o Senador. Eu quero a cabeça dos dois. E quero o consórcio em cinzas.
Assenti. A raiva em mim era fria, calculada.
- Vai ser um prazer, Don. - Dante colocou a mão no bolso do paletó.
- Mas antes da guerra... tem a vida.
Ele tirou uma pequena sacola de veludo escuro e estendeu para mim. Peguei. O peso era pequeno, mas o significado era gigante.
- Você foi rápido. - comentei, abrindo uma fresta do saco só para ver o brilho.
- Eu sou eficiente. - Dante sorriu de canto. - E sei reconhecer quando um homem não tem mais volta.
Fechei a mão sobre a sacola.
- Obrigado, Don. - Ele apertou meu ombro.
- Não me agradeça. Só faça ela feliz. Sofia merece. E você... você merece ter algo que seja só seu.
Entramos no quarto. A cena fez meu peito aquecer. Valentina estava sentada na beira da cama, segurando a mão de Sofia. As duas riam e choravam ao mesmo tempo.
- Olha só quem chegou. - Valentina anunciou, virando para nós com aquele sorriso provocador que o Dante tanto ama (e que às vezes me dá dor de cabeça, porque significa problema).
- Eu estava aqui contando para a Sofia o estado deplorável que o senhor Mario ficou no corredor. - Sofia virou o rosto para mim. Os olhos ainda estavam cansados, mas o brilho... o brilho dela estava lá. Aquele brilho de purpurina e caos que virou minha luz.
- É verdade? - ela perguntou, a voz rouca. - O homem de gelo derreteu? Por isso senti minhas orelhas esquentarem.
- A senhora Vitale exagera. - tentei desconversar.
- Exagero nada! - Valentina riu. - Ele parecia um menino perdido, Soso. Acho que o Mario realmente te ama.
Dante se aproximou da cama, e pegou a todos nós de surpresa dando um beijou na testa de Sofia com carinho de irmão mais velho.
- Fico feliz que esteja bem, piccola . - ele disse.
- Obrigado Don. - minha garota sussurrou emocionada. Valentina também se emocionou com a atitude do marido.
- Não por isso. - ele disse com um sorriso genuíno na voz. - Mas agora... - Dante começou se afastando. - Eu preciso levar minha mulher. Temos que preparar a volta pra casa.
Valentina protestou, mas Dante a puxou pela cintura.
- Vamos, mia vita. Deixe os dois. O Mario tem... protocolos a cumprir. - Ele piscou para mim. Valentina entendeu no ar, sorriu largo e mandou um beijo para Sofia antes de sair.

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