Dante
A mentira, quando encurralada, tem cheiro de animal ferido.
Carmella tentava reverter a situação, falando sobre mal-entendidos, sobre lealdade, sobre erros de comunicação. Ela usava palavras demais. E quem usa palavras demais geralmente está tentando esconder o vazio da falta de argumentos.
Eu não interrompi. Deixei ela falar. Deixei ela se enrolar na própria corda.
O Don não precisa gritar para ser ouvido. Ele só precisa esperar o silêncio certo para derrubar a guilhotina.
Quando ela parou para respirar, com os olhos vidrados de pânico, eu me inclinei para frente.
- Você terminou? - perguntei, calmo.
Ela assentiu, trêmula.
- Ótimo. - murmurei. - Porque agora nós vamos parar de fingir que você tem alguma chance de sair daqui caminhando se não me der a verdade.
Em dez minutos, eu desmontei o teatro dela.
Joguei na mesa os horários. O acesso às câmeras. O pagamento. A mentira sobre o banheiro interditado. O fato de ela ter trancado a porta por fora. O sinal para o Lewis.
Ela tentou negar, mas a negação dela era fraca. Era vidro contra martelo.
Quando a confissão veio, não foi com dignidade. Foi com choro.
- Fui eu! - ela gritou, as mãos nos cabelos. - Fui eu quem pagou o Lewis! Eu tranquei a porta! Eu dei o sinal! Satisfeito?
Eu não sorri.
- Não. - respondi. - Porque você é a mão. Eu quero a cabeça.
Comecei a jogar com o que Joseph tinha me entregado. A morte do pai dela. A promessa de Beatrice. A dívida de sangue.
- Alessandro Ferrara morreu para salvar a pele dela. - eu disse, a voz baixa, cruel. - E o que ela fez? Pegou a filha dele e transformou em escudo humano. Você não é afilhada, Carmella. Você é dívida paga. Você é descartável.
- Não! - ela retrucou, recuando na cadeira. - Ela me ama! Ela prometeu cuidar de mim!
- Cuidar? - soltei uma risada seca. - Beatrice cuida de quem serve a ela. No momento em que você vira peso, ela te solta.
Tentei fazê-la confessar a explosão no porto. A morte da Lúcia. Mas ali, Carmella travou. O medo dela de Beatrice era maior do que o medo de mim. Ela defendia a mulher como se defendesse uma santa.
- Ela nunca faria isso! - Carmella chorava. - Beatrice é a única que me protege! Ela tentou me tirar daqui!
Eu vi a brecha.
- Ela tentou te tirar? - repeti, com escárnio. - Não, Carmella. Ela tentou negociar a sua saída enquanto tentava entrar na minha cama.
Carmella parou. O choro cessou por um segundo.
- O quê?
- A sua "protetora" - continuei, injetando veneno em cada sílaba - veio até mim. Tirou a roupa. Tentou me seduzir. E quando eu disse não... ela vestiu o casaco e foi embora. Ela não saiu daqui com você. Ela saiu sozinha, com o orgulho ferido, e deixou você para trás como quem deixa lixo na calçada.
- É mentira! - ela gritou, os olhos arregalados de loucura.
- É? - desafiei. - Então onde ela está? Por que não está aqui, exigindo sua liberdade? Por que a "rainha" não voltou para buscar o peão?
Carmella começou a tremer incontrolavelmente. A realidade estava batendo na porta da fé cega dela.
Aproveitei o desequilíbrio.
Comecei a listar tudo. O chá envenenado em Florença. O bilhete em Paris. O cartão na porta do hotel em Londres.
- Ela usou você. - insisti, implacável. - Assim como usou seu pai. O pai que morreu por culpa da ambição dela. Ela planejou tudo, Carmella. E você foi só a ferramenta que ela quebrou para tentar me atingir.
- MENTIRA! - ela gritou, tapando os ouvidos.
- Verdade. - forcei. - Ela queria matar meus filhos. Queria matar minha mulher. E usou você para sujar as mãos enquanto ela ficava limpa.
Carmella levantou num salto, derrubando a cadeira.
- ELA TINHA QUE MORRER! - explodiu, a voz rasgando a garganta. - Valentina tem que morrer! Seus filhos não podem nascer! E a Lúcia... a Lúcia não merecia você!
O nome de Lúcia na boca dela foi o estopim.
Eu me irritei. A calma do Don trincou. Avancei nela, pronto para fazê-la engolir o nome da minha primeira esposa.
Mas Carmella foi rápida.
Num movimento brusco, ela puxou algo da lateral do vestido. O brilho metálico cortou o ar.
Uma faca.
Parei, confuso por um milésimo de segundo. Meus homens sacaram as armas, mas eu fiz sinal para esperarem.
Como diabos ela tinha uma faca? Ela tinha sido revistada.
Carmella segurava a lâmina com as duas mãos, apontando para mim, mas tremendo tanto que parecia prestes a derrubá-la. O desespero nela tinha virado loucura.
- Liga pra ela! - exigiu, ofegante. - Liga pra Beatrice! Manda ela vir me buscar! Agora!
Eu olhei para a faca, depois para os olhos dela.
- Ela não vem, Carmella. - falei, a voz voltando a ser gelo. - Ela nunca viria.
- VEM SIM! - berrou. - Ela prometeu! Liga agora ou eu... eu...
- Ou você o quê? - dei um passo à frente. - Vai me matar? Você não tem coragem nem para viver a própria vida, imagina para tirar a minha.
Ela recuou, encostando na parede.
- Ela não me abandonaria... - sussurrou, tentando convencer a si mesma.
Eu fiz um sinal para Joseph.
- Mostre a localização da Beatrice. - ordenei.
Joseph se aproximou com o tablet, a tela brilhando com um mapa de rastreamento.
- Ela está no aeroporto privado, Don. - Joseph disse, alto e claro. - O jato está taxiando. Destino não declarado, mas a rota aponta para fora da Europa.

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