Valentina
O sol já tinha reivindicado o céu de Londres há algum tempo. A luz entrava pelas frestas da cortina pesada, desenhando linhas de poeira dourada no ar, como se o dia lá fora não soubesse do peso da noite que tivemos aqui dentro.
Estiquei a mão pelo lençol, buscando o calor que meu corpo já aprendeu a exigir.
Vazio.
Frio.
- Dante? - sussurrei, a voz ainda rouca de sono e resquício de medo.
O silêncio me respondeu.
Sentei-me na cama, o coração acelerando num reflexo bobo de quem ainda espera o pior. Mas então eu o vi.
Ele estava na poltrona do canto, perto da janela.
Dante não tinha se trocado. Ainda vestia a calça social preta e a camisa branca do baile, agora com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas de qualquer jeito. A cabeça estava tombada para o lado, o rosto relaxado de um jeito que o mundo nunca vê.
A exaustão, por fim, tinha vencido o guerreiro.
Levantei-me devagar, cuidando para não fazer barulho. Meus pés descalços afundaram no tapete enquanto eu caminhava até ele. Parei a um passo de distância, apenas admirando.
É raro vê-lo assim. Desarmado.
Sem o peso do Don nos ombros, ele parecia... humano demais. Havia sombras arroxeadas sob os olhos, marcas de quem carrega impérios e famílias nas costas sem pedir ajuda.
Levei a mão ao rosto dele. A barba por fazer roçou na minha palma, áspera, real. Deslizei o polegar pela linha do maxilar, descendo até os lábios que, poucas horas antes, tinham prometido destruir quem me tocasse.
Inclinei-me.
Toquei a boca dele com a minha. Um beijo leve, quase um sopro.
No mesmo instante, antes mesmo de abrir os olhos, o braço dele se moveu. Firme. Rápido. Possessivo.
Senti a mão dele na minha cintura e, num movimento único, fui puxada. O mundo girou e eu aterrissei no colo dele, aninhada contra o peito largo que é meu travesseiro favorito.
Ele abriu os olhos. Cinzas. Já alertas, mas banhados de algo que só eu recebo: ternura.
- Acordar com um beijo seu... - a voz dele saiu grave, arranhada pelo sono. - Eu poderia me acostumar a morrer e voltar todo dia, se fosse assim.
Sorri, passando os dedos pelo cabelo dele.
- Você está tentando ser charmoso, Don Vitale. - murmurei. - Mas seus olhos não sabem mentir pra mim.
O sorriso dele vacilou. A máscara do Dante brincalhão caiu, deixando apenas o homem preocupado.
- Eu não consigo esconder nada de você, consigo?
- Não. - respondi, encostando minha testa na dele. - O que aconteceu?
Ele suspirou. Um som longo, pesado.
- A tempestade tem nome, Valentina. E tem história.
E ali, no silêncio do quarto de hotel, ele me contou.
Contou sobre Beatrice. Sobre a tentativa ridícula e desesperada de seduzi-lo na sala de reuniões, o que fez meu sangue ferver e minhas unhas cravarem de leve no ombro dele.
- Ela tentou te tocar? - perguntei, sentindo o ciúme ácido subir.
- Tentou. - ele respondeu, segurando meu rosto. - Mas eu só tenho pele pra você. O resto do mundo é vidro. Eu não sinto.
A raiva diminuiu, dando lugar a uma tensão fria quando ele continuou.
- E a Carmella? - perguntei, lembrando da mulher que me levou para a armadilha.
Dante desviou o olhar por um segundo, olhando para o nada, como quem vê uma cena que prefere esquecer.

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