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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 110

Dante

Mario não disse nada por alguns segundos depois de tudo que eu falei.

Do outro lado da linha, eu ouvia apenas a respiração dele, controlada demais para ser calma. Mario sempre foi bom em esconder o impacto das coisas. Mas eu o conhecia o suficiente para saber quando uma frase tinha atravessado fundo.

- Ela disse isso mesmo? - ele perguntou, por fim. - "Eu sempre garanto"?

- Disse. - respondi, seco. - Olhando nos meus olhos.

O silêncio voltou. Mais pesado.

- Isso não é frase de mulher rejeitada. - Mario concluiu. - É frase de alguém que já cruzou limites antes.

Concordei em silêncio.

Caminhei pela sala devagar, sentindo o chão firme sob meus pés como se precisasse daquela sensação para não deixar os pensamentos escaparem do controle. A imagem de Beatrice, de lingerie, jogada no chão da minha memória, não tinha nada de sensual. Era feia. Estratégica. Doente.

- Eu mandei o Joseph levantar tudo sobre ela. - falei. - Passado, negócios, favores, contratos antigos. Mas eu quero mais, Mario. Quero saber quem ela machucou antes e quem eu não vi cair pelo caminho.

- Porque agora você está ligando os pontos. - ele respondeu.

- Estou. E não gosto do desenho que está se formando.

Mario suspirou do outro lado.

- A Beatrice sempre jogou xadrez enquanto todo mundo achava que ela brincava de damas. - ele disse. - A diferença é que agora o Don virou o tabuleiro.

Encostei a mão na mesa, os dedos fechando devagar.

- Hoje ela tentou me dobrar pela emoção. - continuei. - Quando não conseguiu, partiu para ameaça. Isso não foi impulso. Foi frustração acumulada.

- O Don acha que ela teria coragem de... - Mario começou, mas não terminou.

- De matar? - completei. - Sim. Se isso significasse não perder.

Ele ficou em silêncio de novo.

- E a Sofia? - perguntei, mudando o eixo antes que a conversa afundasse demais.

- O médico disse que vai tirar o sedativo em algumas horas. - respondeu. - Se ela reagir bem, acorda ainda hoje.

Fechei os olhos por um segundo.

- Você vai estar lá. - afirmei.

- Já estou. - disse ele. - E não saio.

Assenti, mesmo sabendo que ele não podia me ver.

- Qualquer mudança, me liga. - ordenei. - Qualquer coisa fora do normal.

- Sempre. - Mario respondeu.

A ligação terminou, mas o peso ficou.

Sentei-me lentamente na cadeira, encarando o nada. Aquela zona neutra entre pensamento e memória onde as verdades costumam aparecer sem maquiagem.

- Talvez... - murmurei pra mim mesmo e a palavra queimou na língua.

Porque "talvez" é a palavra preferida de quem não aceita rejeição. Porque ela não fecha portas. Ela deixa frestas.

E frestas viram obsessões.

E foi isso que vi nos olhos da Beatrice hoje.

Obsessão... uma que deixei passar por tanto tempo, mas agora entendia.

A obsessão da Beatrice não era amor.

Amor conjuga o outro no presente. Aceita o verbo escolher mesmo quando a escolha não é você.

Beatrice não sabe conjugar escolha. Ela só conhece posse.

Ela não quer ser amada.

Quer ser necessária. Quer ser indispensável. Ela quer que o meu nome só exista se vier acompanhado do dela.

Agora vejo isso com clareza.

E o problema das pessoas obcecadas não é o desejo. É o orgulho ferido por não ser verbo principal na frase de alguém.

Ela me queria como se quer um território.

Não para cuidar. Para marcar. Para dizer é meu mesmo quando nunca foi.

E talvez o erro não tenha sido dela. Talvez o erro tenha sido meu.

Eu nunca disse "nunca".

Eu entreguei o silêncio.

E para alguém como Beatrice, silêncio vira permissão. Permissão vira esperança. Esperança vira loucura.

Deixei Beatrice por meio segundo e fui até Valentina.

Valentina nunca precisou me tomar.

Ela apenas entrou... e ficou. Porque amor não invade.

Amor acontece.

Beatrice confundiu obsessão com sentimento.

E confundiu meu respeito com abertura.

Agora ela conjuga o verbo destruir com a mesma facilidade que antes fingia conjugar o verbo amar.

E quem ama aceita perder.

Quem é obsessiva... prefere matar.

Um toque na porta me puxou de volta.

- Don. - a voz de Joseph soou firme. - Posso entrar?

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