Dante
Mario não disse nada por alguns segundos depois de tudo que eu falei.
Do outro lado da linha, eu ouvia apenas a respiração dele, controlada demais para ser calma. Mario sempre foi bom em esconder o impacto das coisas. Mas eu o conhecia o suficiente para saber quando uma frase tinha atravessado fundo.
- Ela disse isso mesmo? - ele perguntou, por fim. - "Eu sempre garanto"?
- Disse. - respondi, seco. - Olhando nos meus olhos.
O silêncio voltou. Mais pesado.
- Isso não é frase de mulher rejeitada. - Mario concluiu. - É frase de alguém que já cruzou limites antes.
Concordei em silêncio.
Caminhei pela sala devagar, sentindo o chão firme sob meus pés como se precisasse daquela sensação para não deixar os pensamentos escaparem do controle. A imagem de Beatrice, de lingerie, jogada no chão da minha memória, não tinha nada de sensual. Era feia. Estratégica. Doente.
- Eu mandei o Joseph levantar tudo sobre ela. - falei. - Passado, negócios, favores, contratos antigos. Mas eu quero mais, Mario. Quero saber quem ela machucou antes e quem eu não vi cair pelo caminho.
- Porque agora você está ligando os pontos. - ele respondeu.
- Estou. E não gosto do desenho que está se formando.
Mario suspirou do outro lado.
- A Beatrice sempre jogou xadrez enquanto todo mundo achava que ela brincava de damas. - ele disse. - A diferença é que agora o Don virou o tabuleiro.
Encostei a mão na mesa, os dedos fechando devagar.
- Hoje ela tentou me dobrar pela emoção. - continuei. - Quando não conseguiu, partiu para ameaça. Isso não foi impulso. Foi frustração acumulada.
- O Don acha que ela teria coragem de... - Mario começou, mas não terminou.
- De matar? - completei. - Sim. Se isso significasse não perder.
Ele ficou em silêncio de novo.
- E a Sofia? - perguntei, mudando o eixo antes que a conversa afundasse demais.
- O médico disse que vai tirar o sedativo em algumas horas. - respondeu. - Se ela reagir bem, acorda ainda hoje.
Fechei os olhos por um segundo.
- Você vai estar lá. - afirmei.
- Já estou. - disse ele. - E não saio.
Assenti, mesmo sabendo que ele não podia me ver.
- Qualquer mudança, me liga. - ordenei. - Qualquer coisa fora do normal.
- Sempre. - Mario respondeu.
A ligação terminou, mas o peso ficou.
Sentei-me lentamente na cadeira, encarando o nada. Aquela zona neutra entre pensamento e memória onde as verdades costumam aparecer sem maquiagem.
- Talvez... - murmurei pra mim mesmo e a palavra queimou na língua.
Porque "talvez" é a palavra preferida de quem não aceita rejeição. Porque ela não fecha portas. Ela deixa frestas.
E frestas viram obsessões.
E foi isso que vi nos olhos da Beatrice hoje.
Obsessão... uma que deixei passar por tanto tempo, mas agora entendia.
A obsessão da Beatrice não era amor.
Amor conjuga o outro no presente. Aceita o verbo escolher mesmo quando a escolha não é você.
Beatrice não sabe conjugar escolha. Ela só conhece posse.
Ela não quer ser amada.
Quer ser necessária. Quer ser indispensável. Ela quer que o meu nome só exista se vier acompanhado do dela.
Agora vejo isso com clareza.
E o problema das pessoas obcecadas não é o desejo. É o orgulho ferido por não ser verbo principal na frase de alguém.
Ela me queria como se quer um território.
Não para cuidar. Para marcar. Para dizer é meu mesmo quando nunca foi.
E talvez o erro não tenha sido dela. Talvez o erro tenha sido meu.
Eu nunca disse "nunca".
Eu entreguei o silêncio.
E para alguém como Beatrice, silêncio vira permissão. Permissão vira esperança. Esperança vira loucura.
Deixei Beatrice por meio segundo e fui até Valentina.
Valentina nunca precisou me tomar.
Ela apenas entrou... e ficou. Porque amor não invade.
Amor acontece.
Beatrice confundiu obsessão com sentimento.
E confundiu meu respeito com abertura.
Agora ela conjuga o verbo destruir com a mesma facilidade que antes fingia conjugar o verbo amar.
E quem ama aceita perder.
Quem é obsessiva... prefere matar.
Um toque na porta me puxou de volta.
- Don. - a voz de Joseph soou firme. - Posso entrar?

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