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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 108

Dante

Valentina dormia.

Não era um sono leve. Era o tipo de sono que só chega depois do medo, quando o corpo entende que sobreviveu e, exausto, decide se render por algumas horas. A respiração dela era profunda, ritmada, como se cada inspiração estivesse reconstruindo o que a noite tentou quebrar.

Eu permaneci ali, parado, observando.

Sempre observei pessoas. Sempre soube identificar sinais. Fraqueza. Desejo. Mentira. Mas Valentina nunca foi leitura fácil. Ela não se entrega em detalhes. Ela se impõe inteira.

Passei os olhos pelo rosto dela com atenção quase reverente. Os cílios longos, a pele ainda pálida demais para o meu gosto, os lábios entreabertos, inchados do beijo que trocamos antes de ela adormecer. Lábios que aprenderam a dizer meu nome como se ele fosse promessa e ameaça ao mesmo tempo.

Inclinei-me e toquei seu maxilar com o polegar, devagar, sem acordá-la. Um gesto mínimo. Um gesto meu.

Depois, meu olhar desceu.

A barriga.

Já não era apenas ideia. Não era apenas futuro.

Estava ali. Redonda. Visível. Declarando ao mundo que Valentina carregava os herdeiros Vitale dentro do próprio corpo. Uma marca viva, orgulhosa, impossível de ignorar.

Sorri de canto.

Quantas ironias cabem num homem?

Eu a comprei para gerar um herdeiro. Para aprender a se render. Para entender quem mandava.

E fui eu quem perdeu o controle primeiro.

Fui eu quem se ajoelhou por dentro.

Fui eu quem se apaixonou.

Valentina não foi moldada para mim.

Eu fui desarmado por ela.

Inclinei-me mais uma vez e depositei um beijo leve na testa dela. Depois outro, mais longo, na curva dos lábios. Um beijo silencioso. Um pacto sem palavras.

- Dorme, amore... - murmurei, mesmo sabendo que ela não ouvia. - Eu resolvo o resto.

Afastei-me devagar. Ajustei o lençol. Conferi a porta, a janela, os cantos do quarto. Segurança não é paranoia. É instinto treinado pela sobrevivência.

Antes de sair, olhei para ela mais uma vez.

Quem ousar tocar no que é meu... vai aprender que amor também mata.

Fechei a porta.

No corredor, Joseph me aguardava com a postura impecável de sempre. Ele não perguntou se Valentina estava bem. Ele já sabia que, se eu estava ali, ela estava viva.

- Homens de confiança no andar inteiro - ordenei. - Dois na porta, dois no corredor, revezamento a cada hora. Ninguém entra sem passar por você.

- Já providenciei. - respondeu. - E ninguém sai.

Assenti uma única vez.

- Então vamos trabalhar.

Seguimos para a sala reservada do hotel. A sala do Don. Um espaço pensado para decisões que não devem ser ouvidas nem vistas. Sem janelas. Sem decoração desnecessária. Apenas funcionalidade e poder.

Joseph fechou a porta e foi direto ao ponto.

- Eu trouxe tudo o que o senhor pediu. - começou. - Os últimos passos da Carmella, os contatos, os deslocamentos, os horários... até os banais.

Não respondi, apenas fiz um gesto mínimo com a cabeça, autorizando-o a continuar. Ele colocou o tablet na minha frente e começou a deslizar o dedo pela tela.

- Ela chegou a Londres quatro dias antes do evento. Disse que era para "organização prévia", mas não ficou hospedada no hotel oficial. Usou um flat corporativo, pago por uma empresa de fachada. - ele pausou. - A mesma empresa aparece em dois outros eventos organizados pela Beatrice nos últimos anos.

Senti meu corpo ficar tenso.

- Continua. - pedi.

- Nos últimos três dias, Carmella teve contatos frequentes com um número não registrado. Chamadas curtas, sempre fora do horário comercial. Madrugada. - Joseph ergueu o olhar. - O chip foi descartado ontem à noite, uma hora depois do atentado contra a senhora Vitale.

Soltei o ar lento pelo nariz, tentando controlar a fúria que estava crescendo dentro de mim.

- E os deslocamentos? - perguntei.

- Precisos demais para serem casuais. - Joseph respondeu. - Ela evitou câmeras sempre que pôde. Conhecia rotas internas do hotel que não constavam no mapa do evento. Passou duas vezes pela ala de funcionários antes mesmo de conduzir a senhora Vitale até lá.

Meu estômago se fechou. Essa mulher estava assinando o próprio atestado de óbito.

- Ela testou o caminho. - murmurei, mais para mim do que para ele.

Joseph continuou.

- Além disso... - ele desliza a tela mais uma vez - houve uma transferência feita para a conta dela dois dias antes do evento. Não veio direto. Passou por três intermediários. Mas a origem...

Ele para. Ergui os olhos para encontrar os dele.

- Fala, Joseph.

Joseph inspirou fundo.

- A origem está ligada a uma fundação cultural. Oficialmente, patrocínio de eventos europeus.

Soltei uma risada baixa.

- Deixe-me adivinhar... Beatrice. - falei.

Joseph assentiu.

- Ainda não é tudo. - acrescentou.

- Claro que não... - respondi com ironia.

- Descobri a ligação real entre Carmella e Beatrice.

Meu corpo ficou imóvel. A mente, não.

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