Valentina
Eu estava deitada na cama do hospital como se o mundo inteiro tivesse sido reduzido àquele quadrado de lençol branco e luz fria.
Dante não dormia, eu sabia. Dante nunca dorme quando eu estou quebrada. Ele estava sentado ao meu lado, com um braço por baixo das minhas costas, me mantendo erguida com aquele cuidado que ele finge não ter, mas que sempre aparece quando ninguém está olhando.
Eu ainda sentia o corpo estranho. Não dor, exatamente. Era uma lembrança do susto. Um eco nos músculos. E os fios no meu braço eram um lembrete de que, ali dentro, eu não era uma Vitale... eu era uma mulher que quase caiu.
A porta abriu.
O médico entrou com a prancheta na mão e um olhar cansado, mas limpo. Um profissional que não se intimida com sobrenome e não se curva para poder.
- Boa noite, senhora Vitale. - ele cumprimentou em inglês, com um sorriso discreto. - Como está se sentindo?
Eu pisquei, tentando organizar a cabeça.
- Melhor. - respondi, e a minha voz saiu mais firme do que eu esperava. - Um pouco tonta.
Dante não disse "boa noite". Ele nunca desperdiça palavras quando o medo ainda está ali, escondido atrás da calma.
- Pronta para receber alta? - o médico perguntou, mas foi o Dante quem respondeu.
- Ela teve sangramento. - ele lembrou, seco. - E perdeu a consciência. É realmente seguro ela já sair do hospital?
- Eu entendo sua preocupação. - ele disse. - Vou examiná-la e, se estiver bem, e vocês estiverem confortáveis com isso, darei a alta.
Ele aproximou o estetoscópio, verificou pressão, perguntou das tonturas, tocou meu pulso, analisou a cor da minha pele como se pudesse ler a verdade no sangue. Eu segurei a respiração quando ele colocou o aparelho na minha barriga e depois sorriu.
- Está estável. - confirmou. - Os batimentos dos dois bebês seguem fortes. Não há sinais de complicação no momento.
"Dos dois."
Toda vez que alguém dizia "os dois", meu peito fazia uma coisa bonita, mesmo no meio do medo.
Dante inclinou o corpo, olhando o médico como se pudesse intimidar o tempo.
- E o sangramento?
- Com gêmeos, um episódio leve no início pode acontecer. - explicou. - Os exames estão bons, a ultrassonografia está excelente. O que ela precisa agora é repouso, hidratação e... evitar estresse.
Dante soltou um ar pelo nariz, como se o conceito de "evitar estresse" fosse uma piada mal contada.
- Então dará mesmo a alta? - ele perguntou, ainda desconfiado.
O médico assentiu.
- Sim. Se ela se sente bem, sem dor, sem novo sangramento, e com sinais vitais estáveis... darei alta. - ele fez uma pausa, olhando diretamente para mim. - Mas com recomendações rigorosas. Repouso. Sem esforço. Sem tensão. E qualquer sinal diferente, volta imediatamente.
Dante ficou em silêncio por meio segundo. O tipo de silêncio em que ele engole um monstro para não assustar o mundo.
- Ótimo. - ele respondeu, finalmente. Mas "ótimo" na boca de Dante não parecia alegria. Parecia uma ordem para o universo: você vai obedecer.
Eu engoli em seco e a ansiedade que eu vinha segurando desde que acordei voltou com força.
- E a Sofia? - perguntei.
O médico mudou levemente a expressão. Não era má notícia. Mas era prudência.
- O caso dela é mais delicado. - ele explicou, com cuidado. - Anafilaxia com inalação de agente irritante. Nós estabilizamos, ela está bem agora, mas estamos mantendo sedação leve para ajudar o corpo a se recuperar sem esforço respiratório.
Meu coração apertou, e eu senti a mão de Dante se fechar um pouco mais na minha cintura, como se ele percebesse meu medo antes de eu dizer.
- E amanhã? - eu insisti.
- Pela manhã, vamos retirar o sedativo e observar como ela reage. - ele disse. - Se ela mantiver boa saturação, sem broncoespasmos, sem complicações... avaliamos a possibilidade de alta nas próximas vinte e quatro a quarenta e oito horas. Tudo depende da resposta dela.
Eu assenti, devagar.
- Entendi.
Dante assentiu também, mas os olhos dele endureceram com uma promessa interna que eu reconheço.
- Obrigado. - ele disse ao médico. Uma palavra rara. Curta. Exata.
O médico escreveu algo, deixou as orientações e saiu.
E quando a porta fechou, o quarto pareceu respirar.
Dante se inclinou até mim, encostou a testa na minha por um segundo, e o gesto foi simples, mas eu senti como se ele estivesse dizendo sem palavras: eu te amo.
- Vamos embora. - ele murmurou, como se o hospital fosse um inimigo.
Ele ajudou a enfermeira a desconectar os fios, pegou meu casaco, ajeitou minhas pernas para fora da cama com tanto cuidado, como se eu fosse feita de vidro. E eu queria rir, porque Dante Vitale cuida como quem manda... e manda como quem ama.
Quando levantei, senti a tontura leve de novo, e ele me segurou imediatamente, braço firme na minha cintura.
- Não corre. - ele ordenou baixinho, perto do meu ouvido. - Você não precisa ser forte agora.
- Eu nunca precisei. - sussurrei. - Eu só finjo que preciso.
Ele me lançou aquele olhar dele. Aquele que diz "eu sei".
Saímos do quarto devagar. O corredor tinha cheiro de desinfetante e pressa, mas eu estava agarrada na presença dele como se fosse um corrimão.
E foi ali que vimos Mario.
Encostado perto da porta da UTI, como se o corpo dele não soubesse ir para nenhum outro lugar. A postura era firme, mas os olhos... os olhos estavam em ruínas.
Dante parou.
- O médico falou com você? - ele perguntou.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia