Valentina
Eu ainda estava tentando entender tudo que tinha acontecido.
Estava absorvendo minha conversa com Mario.
Foi quando olhei... e ali estava ele.
Dante.
De pé, na moldura do quarto, como se tivesse atravessado um campo minado só para me encontrar inteira do outro lado. O paletó estava aberto, a camisa amassada no colarinho, o cabelo desalinhado do jeito que só fica quando o mundo tenta arrancar algo dele e falha.
Por um segundo, eu só olhei.
Porque ver Dante depois de quase perdê-lo não é simples. É físico. É um choque que começa nos olhos e desce direto para o peito, como se o coração precisasse reaprender o próprio ritmo.
- Don... - Mario murmurou, já se afastando da cama. - Vou dar licença.
Eu nem consegui responder. Só vi quando ele saiu, fechando a porta devagar, como quem entende que certos reencontros precisam de silêncio.
Dante não disse nada.
Ele caminhou até mim com passos lentos, contidos, como se tivesse medo de me assustar. Mas quando ele chegou perto o suficiente para eu sentir o perfume dele, aquele cheiro de casa misturado com perigo, algo em mim simplesmente cedeu.
Minhas mãos se moveram antes da cabeça.
Eu agarrei a camisa dele com força e o puxei para mim.
O beijo veio como um desabafo.
Não foi urgente. Não foi faminto. Foi profundo.
Foi aquele tipo de beijo que não quer tomar nada, só confirmar que ainda existe.
Os lábios dele tocaram os meus com cuidado primeiro, como se ele estivesse pedindo permissão. Mas quando eu respondi, abrindo a boca, deixando o ar sair, Dante afundou a mão na minha nuca e me beijou como quem promete ficar.
Eu senti o corpo dele tremer levemente, como se aquele beijo estivesse segurando algo que ele passou horas impedindo de desmoronar.
Quando nos afastamos, foi só o suficiente para respirar.
A testa dele encostou na minha.
- Desculpa, mia vita... - ele murmurou, a voz baixa, carregada. - Por você acordar... e eu não estar aqui.
Meu peito apertou.
- Eu achei que tinha te perdido - confessei, com a voz ainda fraca. - Achei que... por um segundo... eu estava sozinha.
Ele fechou os olhos, como se aquela frase doesse fisicamente.
- Nunca. - respondeu. - Nem por um segundo você esteve sozinha. Mesmo longe, eu estava aqui. Com você. Com eles.
Meu instinto me puxou para o lugar mais sensível.
- Os bebês... - perguntei, levando a mão à barriga. - Eles estão bem, não estão? Mario disse que sim, não que eu não acredite nele... mas quero ouvir de você.
Dante sorriu de um jeito contido, mas real.
- Estão. - disse. - Dois corações fortes. O médico fez o ultrassom. Disse que o sangramento foi um susto, não um risco. Você vai precisar de repouso... mas eles estão seguros.
- Fortes... os dois? - Minha voz saiu embargada.
Dante segurou meu rosto entre as mãos.
- Sim, amore mio. I due.
Deixei uma lágrima cair. Meus bebês estão bem... meu lutador está lutando.
Senti os lábios do Dante capturando minhas lágrimas. Eu fechei os olhos e deixei o ar sair.
- Eu senti... - comecei, hesitando. Dante se afastou um pouco. - Antes de ir ao banheiro. Foi estranho. Um desconforto. Uma sensação ruim. Como se algo estivesse fora do lugar.
Abri os olhos e encontrei os dele.
- Se eu tivesse ouvido minha intuição...
Dante me interrompeu com um gesto suave, encostando o dedo nos meus lábios.
- Não. - disse firme, mas doce. - Você não tinha como saber. Não transforma cuidado em culpa, Valentina. Quem errou não foi você. Quem errou foi quem decidiu brincar com o teu corpo como se ele fosse cenário.
Engoli em seco.
- E a Sofia? - perguntei, a dor voltando como um nó. - O Mario... eu conversei com ele. Eu vi nos olhos dele. Aquilo não era só medo. Era... amor.
Dante assentiu devagar.
- É. - confirmou. - Ele ama ela mais do que sabe admitir.
- Isso me deixa feliz... - confessei. - Mas também me dá medo. Medo de acontecer alguma coisa com ela.
Dante segurou minha mão com mais força.
- Não vai. - garantiu. - Ela é forte. E agora tem alguém que vai virar o mundo do avesso por ela se for preciso.
Eu sorri de leve.
- Ele está assustado.
- E isso é novo para ele. - Dante respondeu. - Mas não é fraqueza. É só... humanidade chegando atrasada.

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