Valentina
Meu estômago afundou.
- Exijo saber. Agora. - meu tom mudou, sem eu pedir permissão a mim mesma. Foi o instinto Vitale. Foi o instinto de uma mulher que aprendeu que, em guerra, a verdade precisa vir rápido ou ela mata do mesmo jeito.
Mario fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, havia dor.
- Ela está viva. - ele disse, simples, como se estivesse segurando o peso de cada sílaba.
Meu peito soltou um ar que eu não sabia que estava preso. Mas não durou. Porque ele não parou ali.
E o "mas" ficou no ar sem ser dito. Eu senti minhas mãos ficarem frias.
- Mas... - eu insisti.
Mario olhou para mim como se aquilo o destruísse.
- Mas ela está na UTI.
O mundo fechou.
Eu juro que o teto baixou um pouco. Que a luz ficou mais forte. Que o ar ficou mais curto.
Se eu não estivesse deitada, eu teria caído. Eu levei a mão à boca.
Meu corpo inteiro tremia.
- O que... o que houve? - eu perguntei, e a voz saiu em pedaços. - O que fizeram com ela?
Mario se aproximou da cama e, dessa vez, ele não ficou só como guarda. Ele ficou como homem.
- Ela teve uma reação alérgica grave. - disse devagar, escolhendo palavras que não me quebrassem por inteiro. - Anafilaxia. A fumaça tinha um agente químico... ela inalou muito. Chegou aqui com dificuldade para respirar. Os médicos agiram rápido. Ela está... estável. Ela está viva, Tina.
Tina.
A palavra me atravessou como um choque.
Eu olhei para ele.
- Você... - minha garganta apertou. - Você me chamou como ela me chama.
Mario engoliu seco.
E aí eu vi.
Não era o Sottocapo falando comigo.
Era um homem tentando não perder o amor da vida dele em um corredor de hospital.
- Eu não consegui... - ele murmurou, baixo. - Eu tentei ser pedra. Como sempre. Mas quando eu vi ela naquela maca... eu...
Ele parou.
Os olhos dele ficaram úmidos. Não era choro. Era algo mais brutal do que choro.
Era medo.
- Mario... - eu sussurrei.
Ele balançou a cabeça.
- Eu nunca senti isso. - a voz dele saiu rouca. - Eu achei que sabia o que era lealdade. Achei que sabia o que era viver por alguém. Eu vivi anos por causa do Don. Pela família. Pela organização. Pela ordem. Isso eu entendo.
Ele respirou fundo.
E eu vi a mão dele tremer de leve.
- Mas quando é ela... - ele continuou. - Quando é a Sofia... eu não consigo organizar nada dentro de mim. Eu só... eu só fico com medo.
Meu peito apertou de um jeito diferente. Um jeito que não era pânico.
Era empatia.
Era ver um homem grande, perigoso, pronto para matar por ordem, sendo reduzido a um menino no escuro porque ama alguém.
- Você ama ela. - eu disse, como uma constatação.
Mario fechou os olhos.
Quando abriu, a verdade estava ali.
- Eu amo. - ele confessou, e a palavra pareceu doer. - Eu amo de um jeito que me deixa fraco. E eu odeio me sentir fraco.

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