Valentina
Eu não sonhava.
Eu caía.
E, enquanto caía, flashes vinham como lâminas curtas, brilhando no meio do escuro. Não eram lembranças completas. Eram pedaços. Sensações soltas, costuradas por medo.
A primeira foi a pontada.
Uma fisgada baixa, funda, no ventre, como se meu corpo tivesse puxado o freio com violência. Eu lembro de ter parado no meio do salão, a mão instintiva indo para a barriga, tentando disfarçar o pânico com um sorriso que não me pertencia.
Depois veio o banheiro.
Eu lembro do som das vozes misturado à música e ao riso de gente que não fazia ideia de que o mundo ia mudar em poucos minutos. Carmella apareceu como sempre aparece, no momento exato em que não deveria. Prestativa. Atenta. Com aquele jeito manso de quem quer ser útil e indispensável.
Dante queria ir.
Carmella disse que iria comigo.
O banheiro principal estava interditado. Uma fita. Um aviso. Uma desculpa fácil demais.
Eu senti a primeira onda de desconforto se formar antes mesmo de entender por quê.
Sofia apareceu no caminho. A Soso, com o olhar esperto e o corpo pronto, como se pressentisse perigo antes de qualquer alarme. Ela me viu com a mão na barriga e o sorriso dela morreu na hora.
Ela veio.
E, de algum modo, isso me deu uma segurança que eu não soube nomear. Eu só soube sentir.
Carmella nos conduziu por um corredor diferente, fora do fluxo do evento. Disse que era mais rápido. Disse que era o banheiro de funcionários.
Eu lembro da sensação ruim crescendo, lenta, insistente. Lembro da luz do corredor, mais fria do que deveria. Lembro do salto de Sofia batendo no chão, marcando o ritmo do meu próprio coração.
E então a porta.
Carmella mandou a gente entrar. Disse que esperaria do lado de fora.
A porta fechou.
O som do trinco pareceu alto demais.
Eu lembro do cheiro. Não era cheiro de banheiro. Era cheiro de coisa antiga, abafada, como se o ar não circulasse ali há muito tempo.
Eu lembro de ter ido ao vaso e, no instante em que abaixei a calcinha, meu coração travou.
Sangue.
Pouco, mas vermelho o suficiente para virar morte na minha cabeça. Eu lembro do som da minha própria respiração falhando.
Lembro de Sofia se aproximando rápido, segurando meus ombros, olhando com cuidado, sem pânico visível, porque ela nunca me oferecia pânico. Ela me oferecia direção.
Ela dizia alguma coisa. Eu não lembro das palavras. Eu lembro do tom. Firme. Protetor.
Eu lembro de ter chamado por Dante.
Não com voz. Com alma.
E, então...
O estrondo.
Não foi uma explosão de filme. Foi um impacto seco, agressivo, como se alguém tivesse chutado o mundo por dentro. A porta tremeu. A luz falhou. O ar mudou.
Fumaça.
Uma fumaça pesada, que entrou rápido, tomando o espaço, atacando a garganta, queimando por dentro.
Eu lembro de Sofia gritar meu nome.
Lembro dela bater na porta. De chutar. De tentar abrir.
Lembro do meu corpo ficando pesado. Dos olhos ardendo. Da barriga apertando como se meu instinto tentasse proteger os bebês com o próprio osso.
Liguei para o Dante. Meu marido. Meu mundo.
A palavra atravessou a fumaça como se fosse luz.
- Amore...
E foi a última coisa antes de tudo escurecer.
Quando acordei, eu não soube onde eu estava. O teto era branco. Luz branca. Cheiro de antisséptico. Um bip insistente ao meu lado marcava um ritmo que parecia emprestado.
Eu tentei me mexer e o corpo reclamou inteiro, como se eu tivesse sido puxada de volta para a vida pelo braço.
Meu braço.
Fios.
Senti algo preso à minha pele e, por um segundo, o pânico veio antes da razão. Eu puxei instintivamente.
Uma dor aguda subiu pelo antebraço.

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