Dante
Carmella engoliu em seco.
- Senhor Vitale... - ela começou, tentando retomar aquela voz de assistente perfeita, a mesma que ela usou no salão. - Isso está saindo do controle.
Eu ri.
Um riso curto.
- Controle? - repeti. - Você deixou duas mulheres trancadas com fumaça e fala de controle.
Beatrice endureceu.
- Solta ela. Agora.
Eu dei um passo na direção de Beatrice. Um passo só.
E a sombra do Don cobriu a luz dela.
- Você não dá ordens na minha casa. - eu disse. - E esse hotel, hoje, é minha casa.
Os olhos dela brilharam. Um brilho perigoso, quase... prazeroso.
Ela gosta de força. Sempre gostou. Só nunca admitiu.
- Você não vai fazer nada com ela. - Beatrice disse. - Não enquanto eu estiver aqui.
A frase pairou como desafio.
Eu guardei.
Não porque eu não soube responder. Mas porque eu soube que responder agora seria desperdiçar munição com quem ainda estava tentando manter a máscara.
Eu virei para o homem preso.
- Qual é o seu nome? - perguntei.
Ele hesitou.
Meu homem deu um passo e encostou a mão no ombro dele, pesado, lembrando que a sala não tinha saída.
- Lewis. - ele cuspiu. - Lewis.
- Lewis. - repeti, como quem prova o som. - Quem te pagou?
Ele soltou uma risada amarga.
- Eu não sei.
- Sabe sim. - eu disse, com voz de quem já viu mil versões da mesma mentira. - Você só não sabe o nome.
Ele ficou em silêncio. Eu fiz um gesto. Um dos meus homens abriu a maleta.
O kit do Don não é uma coleção de ferramentas. É um lembrete de que, quando eu tiro a luva, eu não estou mais negociando.
Beatrice tensionou o corpo.
- Dante. - ela avisou. - Não.
Eu nem olhei para ela.
Eu abri a maleta. Tirei as luvas. Vesti uma por uma.
O som do látex esticando na pele foi o tipo de música que só assassinos de mentira acham bonita.
Eu não sou assassino de mentira.
Sou um homem que protege o que é meu.
- Fala. - eu mandei, encarando Lewis. - Quem te pagou?
Ele cuspiu no chão.
- Eu já disse. Não sei.
Eu me aproximei.
Abaixei ao nível dele.
Fiquei perto o suficiente para ele sentir meu perfume, meu calor, meu perigo.
- Você jogou aquilo num banheiro com duas mulheres. - murmurei. - Uma grávida. Outra... uma garota que agora está na UTI porque você achou que era só fumaça.
A respiração dele falhou um pouco.
- Eu só fiz o que mandaram. Eu não sabia que...
- Você sabia que era uma bomba. - cortei. - Você não precisa saber o nome da vítima pra saber o peso do que fez.
Ele apertou os olhos, como se tentasse não ceder.
Eu me endireitei.
E então eu fiz o que o Don faz: eu deixei o medo crescer.
Dei um sinal.
Um dos meus homens se aproximou por trás e segurou o rosto de Lewis, forçando-o a olhar.
Eu não vou descrever o que fiz em detalhes. Não por pudor. Por precisão.
Dor não é espetáculo.
Dor é ferramenta.
E eu a usei como quem escreve com tinta escura.
Lewis gritou. A voz dele se quebrou.
- Tá! Tá! - ele cuspiu entre respirações. - Eu... eu falo!
Eu parei.
A pausa é mais cruel do que o golpe. Porque a pausa diz: eu controlo quando começa e quando termina.
- Então fala. - repeti.
Ele chorou. Não de arrependimento. De instinto.
- Eu não conheço a pessoa. Eu juro! Foi a primeira vez!
- Quem? - eu pressionei, aproximando o rosto. - Homem? Mulher?
- Mulher. - ele respondeu, rápido. - Era... era mulher.
Carmella se mexeu. Um gesto pequeno.
Beatrice ficou imóvel demais.
- Continua. - eu disse, sem desviar.
Lewis engoliu.
- Ela me encontrou na frente do evento... eu tava... eu tava precisando de dinheiro. Ela disse que era simples. Que era só assustar. Só jogar e sair. Disse que ninguém ia morrer.
Minha mão fechou.
A palavra ninguém me deu vontade de quebrar o mundo.
- Como ela era? - perguntei. - Descreve.
- Eu... eu não vi o rosto direito. - ele falou, tremendo. - Tinha capuz. E... e usava um perfume doce. Muito doce. Forte.
Eu senti algo mexer dentro de Carmella. Uma defesa automática. Ela tentou disfarçar.
Não adiantou.
- E tinha um anel. - Lewis continuou, com medo de esquecer um detalhe e pagar por isso. - Um anel... com uma pedra azul e vermelha. Eu lembro porque... porque brilhou quando ela me entregou o dinheiro.
O ar na sala mudou.
Eu virei devagar.
Meu olhar encontrou Carmella.
E Carmella, pela primeira vez, perdeu o controle do próprio rosto. Foi só um segundo, mas o medo escorreu pelos olhos dela como veneno.
Eu caminhei até ela.
Sem pressa.
- Mostra sua mão. - eu ordenei.
Carmella recuou um passo.
- Eu... eu não...
- Agora. - minha voz não levantou. Ela desceu. - Mostra.
Beatrice se colocou na frente.
- Não. - ela disse, com firmeza. - Você não vai humilhar minha assistente.
Assistente.
A palavra foi uma faca.
Porque não era sobre cargo. Era sobre posse. Sobre proteção. Sobre esconder.
Eu encarei Beatrice por um longo segundo.
E então falei, baixo o suficiente para só ela entender.
- Não me queira como seu inimigo, Beatrice.
Os olhos dela brilharam mais uma vez. Um brilho que não combinava com indignação.
Ela gostou da ameaça.

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