Dante
- Não, Beatrice. - respondi, calmo. - Agora é exatamente quando começa.
O silêncio que veio depois não foi vazio.
Foi denso.
Foi o tipo de silêncio que existe antes de uma execução, quando até o ar parece segurar a respiração para não atrapalhar o destino.
Beatrice não recuou. Ela nunca recua quando sente que está perdendo o controle. Ela avançou um passo, como quem entra num território que acredita ainda reconhecer.
Carmella, atrás de mim, ainda ofegava do grito. A palavra falo tinha escapado dela como uma pessoa escapa de um incêndio. E Beatrice tinha entrado como quem fecha a porta de propósito.
Os olhos dela se moveram pela sala e pararam num detalhe que não estava ali antes.
Um dos meus homens segurava outro homem pelos braços, empurrando-o para dentro. O sujeito cambaleou, como se o corpo não obedecesse mais com a mesma dignidade. O rosto estava inchado, um corte no supercílio, sangue seco na boca. A aparência de quem tinha apanhado não porque meus homens gostam de bater... mas porque a verdade costuma ser teimosa e a dor costuma ser convincente.
Beatrice fez um pequeno sinal com a mão. Elegante. Discreto. Um gesto que parecia inocente para qualquer pessoa comum.
Mas eu não sou qualquer pessoa.
Eu reconheço comando.
- Solta a Carmella. - Beatrice ordenou. A voz firme, polida, treinada para ser lei no lugar de súplica. - E termina com essa brincadeira agora.
Ela apontou com o queixo para o homem machucado, como se ele fosse um presente embrulhado.
- Eu trouxe o seu culpado.
A frase caiu como uma moeda falsa sobre a mesa.
Eu sustentei o olhar dela, sem pressa.
Por dentro, eu vi as peças se mexendo. Vi o truque. Vi a tentativa de jogar fumaça sobre a fogueira.
Ela queria desviar o foco. Queria me dar um alvo rápido, um bode expiatório com sangue barato, para impedir Carmella de abrir a boca e puxar o fio que provavelmente terminaria... nela.
Eu não disse isso. Não ainda.
Eu só sorri lento, controlado e deixei a minha calma fazer o trabalho que gritos não fazem.
- Interessante. - murmurei. - Você entrou exatamente no momento em que a verdade ia sair.
Beatrice apertou os lábios.
- Você está cego, Vitale. - ela rebateu, um pouco mais dura. - Esse homem foi quem jogou a bomba no banheiro. Eu descobri. Eu trouxe. Então... acabou.
È finito.
A palavra favorita de quem quer encerrar uma história antes do capítulo final.
Eu inclinei a cabeça, como se considerasse.
- Tudo bem. - eu disse.
Beatrice piscou.
Foi rápido, quase imperceptível, mas ela piscou.
E naquele instante eu vi. Ela esperava resistência. Esperava confronto. Esperava que eu rosnasse.
Aceitar rápido demais sempre parece mentira.

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