Desviei o olhar assim que a pergunta de Laura ecoou no quarto. Não por vergonha imediata, mas porque aquela era a primeira vez, desde que cheguei àquele palácio, que alguém me fazia uma pergunta real. Não carregada de ordens, nem de interesse disfarçado, nem de poder.
Era uma pergunta que exigia verdade, e a verdade, às vezes, pesa mais do que qualquer mentira bem construída.
Respirei fundo, sentindo o ar entrar com dificuldade, como se meus pulmões precisassem reaprender a funcionar naquele lugar.
— Júlia…
Ela insistiu, com a voz mais baixa.
— Eu sei que não começamos bem. Você não tem motivo nenhum para confiar em mim. Houve uma breve pausa, como se ela mesma estivesse escolhendo com cuidado cada palavra.
— Mas, se você estiver aqui contra a sua vontade, eu farei de tudo para ajudar você a se livrar disso e voltar para o Brasil.
Meu corpo inteiro reagiu em alerta.
Voltei o olhar para ela, confusa, desconfiada, quase à beira de rir pela ironia da situação. Laura. Justamente Laura. A mulher que, até poucas horas antes, eu enxergava como minha maior ameaça.
— Por quê?
Perguntei, sem conseguir esconder o tom defensivo.
— Por que você me ajudaria? Sinceramente, eu não sei onde você está querendo chegar com isso.
Minha voz falhou um pouco.
— Se você está tentando me prejudicar, por favor… não faça isso.
Ela deu um passo à frente. Não houve agressividade no gesto. Pelo contrário. Seus movimentos eram cuidadosos, como se temesse me assustar.
Quando percebi, suas mãos já seguravam as minhas. Estavam frias.
— Eu prometo a você...
Disse, olhando direto nos meus olhos...
— Que estou apenas tentando ajudar.
Aquilo era perigoso demais.
Minha mente começou a correr em direções opostas. E se aquilo fosse uma armadilha? E se Laura estivesse apenas fingindo empatia para me colocar em uma situação ainda pior? O fato de eu ter brigado com ela mais cedo, de Al Rashid ter ficado do meu lado… tudo isso poderia ter inflamado algo que eu ainda não compreendia completamente.
Mas havia algo ali. Algo no olhar dela que não combinava com ódio puro.
E, no meio daquele turbilhão, surgiu uma pergunta que eu já não conseguia mais calar:
E se ela estivesse falando a verdade?
E se, por uma chance mínima, ela realmente pudesse me ajudar?
Engoli em seco.
— Sim.
Respondi, por fim, com a voz quase um sussurro.
— Eu estou aqui contra a minha vontade.
Os olhos dela se arregalaram, mas ela não soltou minhas mãos.
— Al Rashid…
Continuei, sentindo o rosto queimar.
— Ele me contratou apenas para passar uma semana com ele.
Parei por um instante. A palavra seguinte parecia pesada demais para atravessar meus lábios.
— Na verdade… ele comprou a minha virgindade, mas…
Minha voz morreu ali.
A vergonha me atingiu com força, como se eu estivesse me despindo emocionalmente diante de alguém que, até pouco tempo atrás, eu considerava perigosa. Baixei a cabeça, sentindo os olhos arderem.
— Tudo bem, Júlia.
Disse Laura, com surpreendente suavidade.
— Pode continuar. Não precisa ter medo aqui.
Respirei fundo. Precisava terminar. Precisava colocar aquilo para fora, mesmo que doesse.
— Ele não tirou...
Falei de uma vez.
— Nunca chegou a tirar. Mas ficou obcecado por mim. Começou a fazer de tudo para me manter aqui.
Minha voz começou a tremer.
— Até que a dona da agência… ela praticamente me vendeu para ele por um ano.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: UMA VIRGEM PARA O SHEIK