JÚLIA
*
Seria muito difícil controlar a minha língua por um ano inteiro. Difícil demais fingir submissão, baixar a cabeça, aceitar ordens como se eu tivesse nascido para aquilo. Ainda mais com Al Rashid tornando qualquer possibilidade de silêncio algo completamente impossível.
Ele parecia ter prazer em provocar, em impor, em testar meus limites como se eu fosse um jogo novo, desses que se quebra só para ver até onde aguenta.
De acordo com as palavras dele, eu seria sua segunda esposa. Ele disse isso com uma naturalidade absurda, como se estivesse escolhendo uma joia, uma tapeçaria, algo que se compra e se coloca em um cômodo bonito para enfeitar. Eu deixei claro, mais de uma vez, que não ficaria ali além do tempo acordado. Um ano. Apenas um ano. Era o combinado, o preço que eu pagaria para salvar a vida da minha mãe. Nada além disso.
Mas ele não escutava. Ou pior: escutava e simplesmente ignorava.
Ele saiu me puxando feito um louco pelos corredores enormes do palácio. Meus pés quase não tocavam o chão direito, e eu mal conseguia acompanhar o ritmo imposto por ele. Tudo ali era grande demais, opressor demais. Os tetos altos, as colunas largas, os tapetes luxuosos que pareciam gritar riqueza e poder. Eu me sentia pequena, insignificante, como se estivesse sendo engolida por aquele lugar.
Até que chegamos a um ambiente totalmente diferente.
Era como um pátio interno, aberto para o céu, cercado por arcos ornamentados em dourado e mármore claro. No centro, havia uma fonte de água cristalina, com esculturas delicadas e flores flutuando na superfície. Palmeiras altas faziam sombra, e o ar era perfumado com algo floral, doce e quase enjoativo. À primeira vista, era um lugar lindo. Um cenário que, em qualquer outra circunstância, me faria querer parar e admirar.
Mas havia elas.
Mulheres lindas, impecáveis, sentadas em almofadas coloridas ou caminhando lentamente pelo pátio. Algumas tinham a pele clara, outras morena, outras negra. Todas extremamente bem cuidadas. Cabelos brilhantes, roupas leves, joias discretas e caras. Elas cochichavam entre si, lançando olhares na minha direção. Olhares carregados de desprezo, raiva, julgamento. Parecia que eu era odiada sem ao menos ser conhecida. Como se a minha simples presença fosse uma ameaça.
Eu entendi naquele instante: aquele era o harém.
Havia várias portas ao redor do pátio. Al Rashid abriu uma delas com brutalidade e me jogou para dentro, sem o menor cuidado. Eu quase tropecei, mas consegui me manter em pé. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele entrou atrás de mim e bateu a porta com força.
A discussão começou ali. E eu posso dizer, sem medo de exagerar, que foi a pior de todas.
As palavras saíam afiadas, dos dois lados. Eu argumentava, ele falava alto. Em um momento, ele me segurou pelo queixo com força suficiente para me fazer arder os olhos. Mandou que eu calasse a boca.
Depois, com uma frieza que me deu náuseas, ordenou que eu me depilasse, que ficasse pronta para ele, como se eu fosse uma escrava, uma posse, algo sem vontade própria. Disse aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Então ele saiu, me deixando sozinha naquele quarto enorme.
Eu comecei a tremer dos pés à cabeça. Minhas pernas fraquejaram, e eu precisei me sentar na beira da cama para não cair. O silêncio depois da tempestade era ainda pior. Meu corpo inteiro reagia, como se estivesse em alerta máximo, pronto para fugir ou lutar, mas sem poder fazer nenhuma das duas coisas.
Eu me perguntei, pela milésima vez, onde eu estava com a cabeça quando escolhi aquele caminho. Onde eu estava quando aceitei a vida da prostituição achando que tinha controle sobre tudo, achando que conseguiria entrar e sair ilesa. Eu sabia dos riscos. Sempre soube. Mas uma coisa é saber, outra completamente diferente é sentir na pele.
Eu já estava exausta de chorar. Não tinha mais lágrimas. Só um vazio pesado no peito e uma dor surda que não passava. Não havia plano algum. Nenhuma saída clara.

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