Os olhos de Lucas ficaram avermelhados.
Ele deu um sorriso amargo.
— Beatriz, na verdade... eu não sou muito diferente deles.
— Naquele dia no lixão, eu...
— Eu sei. — Beatriz o interrompeu. — Aquilo não foi culpa sua.
Lucas ficou paralisado.
Ele não esperava que ela dissesse aquilo.
Achava que ela o odiaria para sempre.
— Na verdade, ao vir aqui hoje, eu... eu não pensei em pedir que aceitasse as ações, muito menos em pedir seu perdão.
Lucas respirou fundo, como se tomasse uma decisão.
— Eu só... queria ver com meus próprios olhos se você estava bem.
— Matheus e Miguel não se conformam, acham que ainda têm chance. Mas eu sei que a família Andrade... acabou faz tempo.
— Eu os aconselhei a não incomodá-la, mas eles não ouviram.
— Agora, vendo que você está bem e que tem o Sr. Guilherme cuidando de você, eu fico tranquilo.
Ele falou com muita sinceridade.
Beatriz ouvia em silêncio, e o gelo que existia em seu coração há tanto tempo pareceu ganhar uma pequena rachadura.
Guilherme observava a cena, com os cantos da boca levemente erguidos.
Ele sabia que, por mais dura que sua Beatriz parecesse por fora, no fundo, ela ainda ansiava por um pouco de calor familiar.
Ele não queria que ela se tornasse verdadeiramente solitária.
Aqueles vermes da família Andrade mereciam o pior.
Mas esse Lucas parecia ser o único que ainda podia ser chamado de "humano".
Mantê-lo por perto talvez fosse bom para ela.
— Ouvi Beatriz dizer que Lucas fazia pesquisas estruturais na área de inteligência artificial no exterior? — Guilherme mudou de assunto repentinamente.
Lucas, surpreso, assentiu: — Sim, fiquei em um instituto de pesquisa por alguns anos.
— Ótimo. — Guilherme sorriu. — Tenho um amigo que lidera projetos relacionados em Massachusetts e está recrutando membros para a equipe principal.
Ele olhou para Beatriz, e a gratidão em seus olhos quase transbordava.
— Irmã...
Beatriz também não esperava que Guilherme fizesse aquilo.
Ela olhou para ele, sentindo o coração aquecido e amolecido.
Esse homem era sempre assim.
Do seu jeito dominador e detalhista, varria todos os obstáculos para ela e pavimentava todos os caminhos.
Até mesmo o afeto familiar, do qual ela já estava quase desistindo, ele encontrou uma maneira de preservar a parte mais limpa para ela.
Ela dirigiu a Lucas um sorriso leve, sincero e há muito tempo não visto.
— Lucas, vamos comer. A oportunidade no exterior é muito boa, não a perca. Não se preocupe com a família Andrade, cuide de si mesmo primeiro.
Lucas segurou as lágrimas, assentiu com força, pegou os talheres, serviu-se de um pedaço de costela e comeu com vontade.
Aquela foi a refeição mais saborosa que ele tivera no último mês.
E também a refeição mais calorosa de toda a sua vida.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Divórcio, Ele Me Trancou no Frigorífico