Lucas segurava a tigela, mas demorava a mover os talheres novamente.
A comida deliciosa à sua frente parecia ter perdido o sabor.
Seu coração estava uma mistura de sentimentos: alívio, desorientação e, acima de tudo, uma culpa avassaladora diante de Beatriz e Guilherme.
No restaurante, o lustre de cristal derramava uma luz quente, mas a atmosfera, após o breve momento de afeto, retornou a um silêncio sutil.
Guilherme cortava o foie gras em seu prato com movimentos elegantes e nobres.
Ele parecia estar apenas conversando casualmente quando, como quem não quer nada, ergueu os olhos para Lucas.
— Lucas, você e aqueles dois são, de fato, diferentes.
Sua voz era suave, mas carregava uma penetração capaz de enxergar tudo.
Lucas enrijeceu, sorriu com amargura e não soube como responder.
Guilherme continuou: — Lembro-me de que você foi estudar no exterior muito cedo e não conviveu muito com Beatriz.
Lucas assentiu: — Sim, fui embora no segundo ano do ensino médio. Só estudei na mesma escola que a Beatriz... por um semestre.
— Um semestre foi o suficiente.
Guilherme pousou os talheres, ergueu a taça de vinho e girou suavemente o líquido vermelho-escuro em seu interior.
Seu olhar, através da taça, pousou no rosto levemente confuso de Beatriz, com uma ternura indissolúvel no fundo dos olhos.
— O temperamento de Beatriz nunca mudou desde pequena. Parece fria, mas tem o coração mais mole de todos.
Ele mudou o foco para Lucas.
— Na época da escola, ela não protegia um colega cuja família tinha falido e que sofria bullying de todo mundo?
Beatriz, que estava tomando a sopa, parou o movimento por um instante.
O Guilherme em sua memória era o topo da Capital, o deus que desceu dos céus para tirá-la da lama quando ela estava na pior.
Já aquela memória do ensino médio era obscura, distante e não tinha qualquer intersecção com o homem radiante à sua frente.
Beatriz achava que ele já tinha esquecido...
E Larissa era quem mais gostava de levar seu grupo de amigas para provocar aquele jovem silencioso.
Usavam todo tipo de palavras venenosas para pisotear sua última dignidade.
Várias vezes, foi Beatriz quem se levantou.
Naquela época, Beatriz também era malvista na família Andrade; era magra e pequena, como um junco que o vento poderia derrubar.
Mas quando ela se colocava à frente daquele jovem, suas costas ficavam perfeitamente retas.
Lucas ainda se lembrava de uma vez em que Larissa xingou de forma horrível, e Beatriz jogou um copo d'água na cara dela, dizendo friamente: — Se você disser mais uma palavra, eu rasgo a sua boca.
Foi a primeira vez que Beatriz mostrou sua firmeza.
Larissa teve um ataque de fúria no local e, ao chegar em casa, fez uma série de reclamações.
Naquela noite, Beatriz apanhou de Miguel até quase morrer.
Lucas presenciara tudo aquilo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Divórcio, Ele Me Trancou no Frigorífico