Os rostos de Matheus e Miguel ficaram lívidos com o questionamento de Beatriz.
Todo o fingimento, todos os cálculos foram despedaçados pelas palavras dela, expostos ao ar livre.
O constrangimento, a vergonha e a raiva de terem sido desmascarados surgiram de uma só vez em seus corações.
Beatriz olhou para aquela cena e achou tudo incrivelmente ridículo.
Ela se abaixou e pegou o [Acordo de Transferência de Ações] sobre a mesa.
Então, sob os olhares atônitos deles, ela gentilmente jogou os papéis para o alto.
As folhas voaram e caíram como flocos de neve aos pés deles.
— Eu não me importo com esse papel velho.
— E não precisam continuar atuando aqui, estou cansada de assistir.
Ela endireitou o corpo, recuperando sua postura indiferente.
— Em consideração ao vovô, vou lhes dar um conselho de amiga.
— Em vez de se ajoelharem aqui me implorando, gastem esse tempo pensando em como sobreviver com as próprias mãos.
— Não deixem que o trabalho de uma vida inteira do vovô se transforme, de fato, em um monte de papel inútil nas mãos de vocês.
Dito isso, ela se virou e caminhou em direção a Guilherme sem olhar para trás.
Guilherme não havia interferido em momento algum, apenas a observava silenciosamente.
Naquele momento, ele se levantou e segurou a mão dela com naturalidade, seus olhos revelando uma admiração e um carinho indisfarçáveis.
Matheus e Miguel, ajoelhados no chão, olharam para os papéis espalhados e depois para o casal afetuoso.
Os dois levantaram-se cambaleando e deixaram a mansão, desolados.
No restaurante, restou apenas Lucas.
Ele permaneceu parado, olhando para os papéis no chão, com o rosto cheio de amargura.
— Lucas.
A voz de Beatriz soou repentinamente atrás dele.
Lucas enrijeceu e se virou.
Viu que Beatriz e Guilherme não tinham ido embora; estavam parados não muito longe, olhando para ele.
— Sente-se.
Beatriz apontou para a mesa de jantar.
— Vamos comer alguma coisa juntos.
Lucas ergueu a cabeça e encontrou os olhos límpidos de Beatriz.
Neles não havia ódio nem ressentimento, apenas serenidade.
Na mente de Beatriz, passou a lembrança daquela noite de tempestade.
Ela havia sido expulsa de casa por Miguel, que jogara todas as suas pesquisas no lixão.
Ela viu o carro de Lucas passar não muito longe e, cheia de esperança, achou que tinha encontrado uma salvação.
Mas o carro não parou, seguiu direto.
Ela ainda se lembrava do desespero daquele momento.
Mas, depois, ela entendeu.
A chuva estava muito forte naquele dia, estava escuro, e ele, sentado no carro, jamais poderia tê-la visto encolhida no meio do lixo.
Racionalmente, ela sabia que não era culpa dele.
Mas emocionalmente, aquela barreira não era tão fácil de superar.
Porém, hoje, vendo a face horrível de Matheus e Miguel, e comparando com o silêncio e a honestidade de Lucas do início ao fim...
Ela sentiu que, talvez, pudesse tentar deixar um pouco de dignidade familiar para si mesma e para ele.

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