Aelyn
Eu estava no meio de anotar os horários da semana quando a porta do meu quarto se abriu sem bater.
Não precisei olhar para saber quem era.
Apenas duas pessoas no mundo inteiro entravam no meu quarto sem bater, e as duas tinham acabado de aparecer ao mesmo tempo, o que significava que alguma coisa estava sendo tramado.
"Não", eu disse, sem tirar os olhos do caderno.
"A gente não disse nada ainda", a Serena respondeu, jogando a bolsa na minha cama com aquela desenvoltura de irmã mais nova que ainda me irritava depois de todos esses anos.
"Não precisou." Terminei de anotar o horário das clientes de sexta e fechei o caderno. "Quando vocês duas chegam juntas com essa cara, é sempre alguma coisa. Eu já disse que vou com vocês ao cinema, o que mais vocês querem."
A Sophia se sentou na cadeira da penteadeira com aquela calma dela que era mais perigosa do que a energia da Serena.
"Eu chamei o meu irmão, mas ele ainda não deu certeza", Sophia disse, jogando de leve. "Mas eu acho que ele vai."
Eu olhei por cima do ombro.
"Em uma quarta-feira? Não acho que ele vai largar o trabalho para isso."
"Há mas eu dei um bom motivo para ele ir", Sophia disse. E então sorriu daquele jeito. "Eu disse que você ia nos apresentar seu namorado."
O caderno escorregou da minha mão e bateu no chão com força.
Eu me virei na cadeira de uma vez.
"O quê?" Olhei para ela. "Você falou o quê, Sophia?"
Ela deu de ombros com aquela calma absurda.
"Você sabe como meu irmão é. Ele precisa de alguma coisa que chame a atenção dele pra sair do automático." Cruzou as pernas. "E eu tenho certeza que isso vai chamar."
" VOCÊ É LOUCA? AONDE EU VOU ACHAR UM NAMORADO?"
A Serena deu uma risada que tentou esconder na manga do moletom e não conseguiu.
A Sophia continuou com a mesma expressão de quem está completamente em paz com as consequências das próprias decisões.
"Se vira", ela disse. "Minha parte eu já fiz."
Eu me levantei, fui até a cama, e me joguei de costas com aquele peso de quem está carregando uma quantidade injusta de situação.
"Vocês querem mesmo ver ele me dispensar de novo", eu disse para o teto. "Não é possível. Você é minha prima, poxa. Eu pensei que vocês me amavam."
"A gente ama você", a Serena disse, sentando ao meu lado. "É por isso que estamos fazendo isso. O Felipe tem que ver que se não te der atenção você não vai mais ficar esperando. Você merece o mundo irmã."
"Isso não faz sentido."
"Faz sim."
"Serena." Virei o rosto para ela. "Ele já deixou claro. Mais de uma vez. Não existe futuro pra gente. Ele nem liga pra isso, pra quem eu namoro, pra o que eu faço na minha vida amorosa. Ele trata isso como se fosse o assunto mais irrelevante do mundo."
"Ele ficou esquisito quando eu falei", a Sophia disse olhando para as unhas, como se aquilo fosse apenas um comentário inocente.
Me sentei na cama na mesma hora.
"O quê?"
"Quando eu falei sobre o namorado." Ela me encarou com aquela atenção da Laís que às vezes me deixava levemente desconfortável. "A expressão dele mudou."
O silêncio durou alguns segundos.
"Esquisito como?", eu perguntei, e a voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
![286. [Segunda fase] - Namorado Falso 1](https://ptapi.freechap.com/assets/chapters/1512883/0.png?v=1781483105)
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