Capítulo 95 — Longe do inferno
Taylor Laurent
A minha mãe tinha umas metáforas interessantes, eu cresci ouvindo elas e acreditando que talvez um dia, uma delas fizesse sentido para mim. Uma delas era “a vida é uma roda gigante, uma hora estamos embaixo, e outra em cima”. A minha roda da vida devia estar desligada, porque eu vivia embaixo. Mas uma noite, foi preciso uma noite para ela de repente ligar e me colocar lá em cima.
Foi louco eu sei, mas finalmente eu consegui sair daquele inferno. Não estou mais embaixo, eu subi. Ou foi o que pensei, quando cheguei na sala e vi Declan, meu peito apertou, eu já vi essa cena, a vivi por anos. O limite da dor, um grito de desespero, esse cara não consegue mais, ele precisa extravasar e foi o que ele fez.
Jenny quis intervir, mas eu a impedi, nessas horas é melhor deixar.
Ele vai bater, gritar, bater de novo e gritar… até ele perceber que nada disso, absolutamente nada disso vai tirar o que está dentro dele. O que nos faz mudar é a decisão, não a de jogar uma poltrona ou esmurrar uma parede. E sim a decisão de que “Tô no limite, não quero mais sofrer”. Algumas escolhem o caminho da ajuda, e espero de verdade que esse seja o dele. O estranho é um cara legal.
O problema é se ele escolher o caminho que minha mãe escolheu, o de acabar com a dor por não suportá-la mais. Quem tira a própria vida, não o faz porque quer morrer… não, ninguém quer. Quem faz isso o faz para acabar com a dor, como uma televisão que está passando um programa ruim, e ao invés de trocar de canal, nos estressamos, reclamamos e desligamos a TV. Sendo que a porra mais simples era “trocar de canal”, mudar o foco do que é ruim e procurar algo bom.
Mas não é fácil assim, assim como o estressado desliga a TV, o sofrido… desliga a vida.
— Amor… — Jenny sussurrou ainda agarrada a mim. Mas Declan não respondeu, respirei fundo e olhei para ela.
— Consegue levantar? — a perguntei, e ela assentiu com um aceno.
Nós duas levantamos e caminhamos juntas até ele, o cara devia ter um metro e noventa e pesar uns duzentos quilos, enquanto ele era o Hércules, eu e Jenny éramos a branca de neve e um de seus anões (contém ironia, claro).
— Vamos levá-lo para o quarto, ele precisa de um banho. — Falei e ela me olhou espantada, acho que ela percebeu o mesmo que eu.
Ela agachou ao seu lado, passou a mão em seu rosto, havia alguns cortes, consequência do vidro que ele estourou da cristaleira com as bebidas. Ele estava todo fudido, e era literalmente.
— Amor, vamos para o quarto… — Ela tirou o cabelo da testa dele com uma delicadeza. — Tirar essa roupa, tomar um banho… — Jenny pegou uma das mãos dele ensanguentada. — Cuidar dos seus ferimentos, por favor… — havia súplica em sua voz.
Declan se manteve em silêncio, ajoelhado, provavelmente com a mente lutando entre se punir pelo que fez, ou voltar a fazer. Se pede desculpa, ou nos manda embora.
— Levanta. — Eu disse em um tom firme. — Aliviou, agora levanta.
Ele virou o rosto pra mim, e não disse nada, só levantou. Jenny me olhou confusa, assim que ele ficou em pé o que eu temia aconteceu.
— Ow, Hércules. — Levei meus braços para segurá-lo e a namorada dele fez o mesmo.
— Amor, o que foi? — Jenny perguntou preocupada.
— Isso é normal, ele teve uma síncope, resultado da injeção de adrenalina e cortisol. Agora vai vir a exaustão física e mental. — eu respondi.
Com muito sacrifício, mas muito mesmo, conseguimos carregá-lo para o quarto, ajudei ela o despir e o levamos até a banheira.
— Acho que a peça íntima deixo por sua conta. — falei para ela.
— Obrigado, Taylor.
— Eu vou pegar minhas coisas e seguir meu caminho, foi um prazer conhecer você, Jenny, e o Hércules aí. — Fiz sinal com a cabeça apontando para ele.

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