Capítulo 347 — Está apenas começando
José Rivera
A tranquilidade é um estado de espírito perigoso para homens como eu. Quando se cresce lutando pela sobrevivência nas ruas do Brooklyn, o corpo se acostuma com a adrenalina. O cérebro fica programado para esperar o próximo golpe, o próximo tiro, a próxima perda. Mas, encostado na bancada de mármore da nossa cobertura em Manhattan, observando o sol da manhã iluminar os arranha-céus da cidade através da parede de vidro, eu percebi que a guerra tinha finalmente acabado.
A poeira do incêndio no Vale do Hudson e de todos os demônios do nosso passado tinha assentado. O George era apenas cinzas. A Juliet e o Noah estavam construindo o seu império de paz. O Chris e a Penny desfrutavam da sua Íris. A Esther e o meu pai... bem, o Predador estava mais rendido do que nunca, e ainda por cima seria papá de novo em breve.
E eu? Eu tinha a minha Princesa.
Athena era a minha salvação em forma de mulher. A garota que conheci em meio a um dos meus caos pessoais, dona de uma elegância inata e de uma doçura que me desarmou desde o primeiro segundo, tinha se tornado a mulher da minha vida. A minha esposa. Ela havia encontrado a própria voz, se impondo com uma classe que deixava qualquer um sem palavras, mas continuava sendo a luz mais pura do meu mundo.
Tomei um gole do meu café preto, mas os meus olhos não deixavam o corredor que levava à nossa suíte. A Athena estava no banho há quase quarenta minutos. E isso estava me deixando com os nervos à flor da pele.
A Athena andava diferente há semanas. O humor dela oscilava de forma atípica. Em um momento, ela se irritava com o Atlas no celular apenas porque o irmão tinha sido superprotetor demais; no minuto seguinte, estava chorando abraçada a mim no sofá, assistindo a um filme qualquer na TV. Além disso, ela tinha parado de beber café. A minha mulher, que adorava o cheiro de café fresco pela manhã, agora dizia que o aroma a deixava enjoada.
O som suave de passos descalços no piso de madeira finalmente me tirou dos meus pensamentos. Athena apareceu na entrada da cozinha, enrolada em um roupão felpudo branco, com os cabelos úmidos caindo pelos ombros. O rosto delicado dela estava pálido, e os olhos escuros pareciam carregar um oceano de incertezas.
Deixei a minha xícara sobre a bancada e limpei as mãos na calça de moletom.
— Bom dia, Princesa. — Falei, a voz saindo grave e rouca pelo silêncio matinal.
Ela não respondeu imediatamente. Caminhou até a ilha da cozinha, evitando o meu olhar, e se serviu de um copo de suco de laranja. As mãos dela estavam tremendo.
— Athena... — Chamei, me aproximando devagar. Envolvi a cintura dela por trás, encostando o meu peito nas costas dela, e deixei um beijo demorado no seu pescoço úmido. — O que tá acontecendo com você? Não me diz que não é nada, porque eu conheço cada detalhe seu. Você tá pálida. Tá evitando café há semanas. Ontem quase vomitou o café da manhã. Eu vou ligar pro Elijah.
O corpo dela ficou rígido sob o meu toque. Ela pousou o copo de vidro com um baque surdo na pedra de mármore e se virou para mim.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas não derramadas. A minha Princesa estava chorando.
— Não liga pro Elijah, José. — Ela sussurrou, a voz doce e embargada.
O pânico se apoderou de mim. O medo primitivo de perdê-la, de a doença que roubou a juventude dela voltar a assombrá-la, fez o meu coração bater descompassado. Segurei o rosto dela com as minhas duas mãos.
— O que você tem? Tá doente? É o fígado? Fala pra mim, Athena, pelo amor de Deus, você tá me matando de preocupação! — Implorei, a respiração já ofegante.
Athena soltou uma risada fraca que se misturou com um soluço. Ela segurou os meus pulsos, puxou as minhas mãos do seu rosto e deu um passo para trás.
— Eu não tô doente, José. — Ela disse, limpando uma lágrima teimosa que escorreu pela bochecha. — Fica aí. Não se mexe.
Fiquei paralisado, observando ela caminhar apressadamente até a nossa sala de estar e abrir a bolsa de couro que estava em cima do sofá. Ela tirou de lá uma pequena caixa de papelão amarrada com um laço de fita vermelha e caminhou de volta para mim.
O meu cérebro deu uma bugada. Eu não conseguia processar a informação.
Ela parou na minha frente e me estendeu a caixa, com as mãos tremendo visivelmente.
— Abre. — Pediu ela, com um fio de voz cheio de expectativa.
Peguei a caixa com o maior cuidado do mundo. Puxei a fita vermelha e abri a tampa.
Lá dentro, pousado sobre um lenço de papel de seda branco, estava o objeto mais minúsculo que eu já tinha visto. Era um par de sapatinhos de bebê. Dois pequenos tênis vermelhos, idênticos aos que eu usava na época em que nos conhecemos. E, ao lado deles, um pequeno objeto de plástico branco com duas linhas intensas marcadas no visor.

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