Capítulo 348 — A Rainha do Diabo
Juan Rivera “Snake”
O último monstro finalmente tinha caído.
Enquanto eu observava as luzes de Nova York passarem como um borrão do lado de fora da janela do meu SUV blindado, o meu peito finalmente parecia livre daquele peso sombrio que nos rondou nos últimos meses. George agora era apenas passado. Uma lembrança ruim, patética e carbonizada que o próprio diabo tinha feito o favor de carregar de volta para o inferno. A nossa família estava segura.
Mas a paz é um conceito muito relativo na vida de Juan Rivera.
O meu coração, que não acelerava nem sob fogo cruzado, estava batendo tão forte que eu podia senti-lo na garganta. O motivo estava deitada no banco de trás do carro, com a cabeça apoiada no meu colo, apertando a minha mão com uma força que quase quebrava os meus ossos.
Esther descobriu a gravidez tardiamente. Entre a loucura do hospital, os casamentos e o caos da nossa vida, os sintomas passaram despercebidos até o corpo dela não conseguir mais esconder. Foi um choque absurdo. Mas agora, poucos meses depois da descoberta, o milagre que nós geramos estava exigindo vir ao mundo com a mesma urgência e fúria que a mãe.
Estávamos em um jantar tranquilo na casa do Atlas e da Sammy quando as dores começaram. Agora, o SUV rasgava o asfalto. José estava no volante, dirigindo com a precisão letal de sempre, com Athena tensa no banco do passageiro. Pelo para-brisa, eu via as luzes traseiras do carro do Elijah e da Mia, que iam abrindo caminho pelo trânsito caótico. O doutorzinho cruzava os sinais vermelhos buzinando, abrindo passagem para que a irmã pudesse dar à luz.
Esther soltou um gemido gutural, travando o maxilar e fechando os olhos com força.
— Ah, porra, Rivera! — Ela rosnou, a respiração entrecortada, os olhos azuis fuzilando o meu rosto. — Isso só pode ser um menino. Teimoso, espaçoso e que gosta de me fazer sofrer e perder o controle. Igualzinho a você!
Dei um sorriso torto, incapaz de segurar o meu próprio sarcasmo, mesmo vendo o suor na testa dela. Nós não sabíamos o sexo do bebê. Em absolutamente todos os ultrassons, a criança virou de costas, cruzou as pernas ou escondeu o rosto.
— Ou é uma menina, doutora. — Retruquei, limpando o suor do rosto dela com as costas da minha mão livre. — Mandona, estressada, arrogante e que tem certeza absoluta de que é a dona da porra toda. Igualzinha à mãe.
Esther arregalou os olhos, prestes a me xingar com todos os palavrões da língua inglesa, mas uma nova contração rasgou o ventre dela. Ela soltou um grito alto, curvando o corpo no banco de couro.
O meu sorriso sumiu na mesma fração de segundo. O pânico me invadiu. Inclinei o meu corpo sobre ela, beijando o topo da cabeça dela repetidas vezes, sentindo o meu próprio peito doer com a dor dela.
— Desculpa. Desculpa, mi reina. Respira, Esther. Olha pra mim, eu tô aqui. — Implorei, a voz grossa carregada de um desespero que eu não tentava esconder.
Ela relaxou os músculos devagar, ofegante, e abriu um sorriso fraco.
— Tá desculpado, seu mafioso idiota. Mas avisa pro José acelerar a porra desse carro. As contrações já caíram para menos de três minutos. Eu sou médica, Juan, eu conheço o meu corpo. Vai nascer logo.
Quando finalmente as rodas do SUV cantaram na entrada da emergência do hospital, o verdadeiro comboio da nossa "grande família" já estava estacionando atrás de nós. Os carros do Dom, do Noah, do Chris, do Atlas e do Declan fecharam a rua.
As portas do hospital se abriram. Um enfermeiro veio correndo com uma maca articulada.
Não esperei por ajuda. Desci do carro, passei os braços por baixo dos joelhos e das costas da Esther e a ergui do banco com facilidade, colocando a minha mulher com toda a delicadeza do mundo sobre a maca.
Enquanto empurrávamos a maca pelos corredores iluminados, a família nos cercou. Noah e Juliet, que nós dois havíamos escolhido para serem os padrinhos do nosso bebê, porque o Noah era o amigo que a vida tinha me dado, e a Ju era a força em pessoa, se aproximaram da maca andando rápido.
Noah segurou a mão da Esther por um segundo, abaixou o rosto e beijou a testa dela com um carinho imenso. Noah conhecia a minha mulher a anos, mas eles não eram só conhecidos, ou antigos colegas de faculdade. Eles eram amigos.
— Você dá conta disso de olhos fechados, doutora. — Noah afirmou, com um sorriso encorajador. — Boa sorte. Nós estamos esperando aqui fora.
Esther sorriu para ele, mas o sorriso não alcançou os olhos dela.
Foi nesse momento que o meu instinto de Predador apitou. O radar que me manteve vivo por décadas me avisou que algo estava errado. Olhei para o rosto da Esther sob as luzes brancas do hospital. Ela estava pálida demais. O suor que escorria pelas têmporas dela era frio. A respiração estava curta, os lábios perdendo a cor. O pavor ameaçou me cegar.
José, que estava logo atrás de mim, notou a mudança brusca na minha postura. O meu filho conhecia os meus demônios.
— Quer companhia lá dentro, pai? — José perguntou, a voz baixa, pronto para entrar e ser a minha âncora se eu precisasse.
Antes que eu pudesse responder, Esther arregalou os olhos. Um grito agudo escapou da garganta dela e, no mesmo instante, o som de um líquido espirrando forte no chão de linóleo do hospital ecoou no corredor. A bolsa dela tinha acabado de estourar.

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