Capítulo 350 — “The rest is still unwritten”
Juliet Blake
O som das risadas infantis misturadas com o tilintar de xícaras de café preenchia o ar com a melodia mais doce que eu já conheci. Estávamos no meio de uma tarde ensolarada, e a lanchonete da Anne cheirava a panquecas frescas e a recomeços.
Dois anos haviam se passado desde o fogo no celeiro. Dois anos desde que o inferno tentou nos engolir pela última vez e falhou miseravelmente. Olhei ao redor, o peito transbordando de uma gratidão que a minha alma inteira não parecia ser capaz de conter.
Do outro lado do salão, Noah estava sentado em uma das cabines de vinil vermelho, com a postura de CEO bilionário completamente arruinada. Ele estava coberto de glacê de chocolate. A nossa Laurinha, agora um pouco mais crescida, tagarelava sem parar, pendurada no pescoço dele como se o pai fosse o próprio centro do universo. E, para o Noah, ela era. O homem mais poderoso de Nova York era massa de modelar nas mãos daquela menininha.
No chão, perto da máquina de música, Heitor e Norton brincavam com carrinhos de fricção. Os dois haviam se tornado os melhores amigos inseparáveis. O meu filho mais velho e o meu cunhado de trinta e cinco anos com a alma de menino dividiam os mesmos super-heróis e as mesmas gargalhadas puras. E, correndo desengonçados entre as mesas sob os olhos atentos dos seguranças, estavam Luke e Logan. Os meus gêmeos, que agora já tinham quase três anos e uma energia inesgotável.
Suspirei, rodando a minha própria xícara de café entre as mãos.
— Eles estão enormes. — A voz acolhedora de Anne me tirou dos meus pensamentos. Ela sentou na cadeira à minha frente, limpando as mãos no avental impecável, com aquele mesmo sorriso maternal que me salvou anos atrás.
— Eles estão felizes, Anne. — Respondi, esticando a mão sobre a mesa para segurar a dela. — Nós estamos felizes. E eu nunca vou ter palavras suficientes para te agradecer por ter me dado aquele empurrãozinho quando eu mais precisava.
Anne sorriu, apertando os meus dedos.
— A força sempre esteve aí dentro de você, Juliet. Você só precisava lembrar como usá-la.
O sino dourado acima da porta de entrada da lanchonete tocou, anunciando novos clientes.
Foi um movimento quase instintivo. Os meus olhos foram em direção à porta, e o mundo ao meu redor pareceu perder o som por um instante.
Uma jovem moça entrou. Ela devia ter no máximo seus vinte e quatro anos. Segurava a mãozinha de uma menina que não parecia ter mais do que quatro. A postura da mulher era curvada, os ombros tensos, o olhar assustado varrendo o ambiente como se esperasse um ataque a qualquer momento. Ela usava um casaco grosso, mesmo o dia estando quente, e óculos escuros grandes demais para o rosto dela. Mas, quando ela virou o rosto para fechar a porta, os óculos escorregaram levemente pelo nariz.
O roxo escuro e amarelado ao redor do olho estava lá. Assim como o corte mal curado no lábio inferior.
Senti a minha garganta fechar. A respiração faltou. A mulher não foi se sentar perto das janelas iluminadas. Ela caminhou de cabeça baixa e se acomodou exatamente na última mesa do fundo. A mesa perto do fliperama. A mesma cabine onde eu me sentei naquela manhã chuvosa, sangrando por dentro e por fora, anos atrás.
Olhei para a Anne no mesmo milésimo de segundo. A senhora de cabelos grisalhos já estava com os olhos marejados, acompanhando a cena com a mesma dor no peito que eu. Anne olhou para mim, abriu um sorriso cúmplice e deu dois tapinhas leves na minha mão sobre a mesa.
— Vai lá, querida. — Anne sussurrou, a voz carregada de sabedoria. — É a sua vez.
Engoli o nó na minha garganta. Assenti devagar. Levantei da cadeira, ajeitei a minha blusa e caminhei a passos lentos até o fundo da lanchonete.
Quando parei ao lado da cabine, a moça encolheu os ombros instintivamente, como se estivesse esperando um golpe, puxando a menininha para mais perto de si.
— Oi. — Falei, a voz o mais suave e doce possível. — Com licença. O meu nome é Juliet.
A mulher me olhou desconfiada, arrumando os óculos no rosto.
— Nós não queremos problemas, senhora. Eu só vim dar de comer pra minha filha e nós já vamos embora.
Sorri fraco, sentindo os meus próprios olhos arderem. Sentei-me no banco estofado à frente dela, sem pedir permissão.
— Eu sei. — Murmurei, apoiando os cotovelos na mesa, quebrando a distância invisível entre nós. — Eu também entrei por aquela porta e sentei exatamente nessa cadeira, anos atrás, jurando pra mim mesma que ia apenas dar panquecas pros meus filhos e seguir dirigindo pra bem longe dele.
A moça paralisou. Os lábios machucados dela tremeram. Ela tirou os óculos escuros devagar, revelando a extensão da agressão, o olho inchado e o pavor de uma vida de abusos.
— Como você...? — Ela sussurrou, a primeira lágrima descendo pelo rosto machucado.
— Porque eu conheço esse olhar. — Falei, esticando a mão e tocando os dedos gelados e trêmulos dela sobre a mesa. — Eu sei o que ele fez com você. Eu sei o medo que você tá sentindo de ele te encontrar, a culpa que te consome achando que não tem pra onde ir. Mas olha pra mim...
Ela levantou os olhos vermelhos para os meus.
— Você fez a coisa certa. — Garanti, a minha voz embargada e cheia de convicção. — Você é forte. E você vai passar por isso. Pela sua garotinha, e por você.
A mulher desabou em um choro silencioso, cobrindo o rosto com a mão livre.
— Eu não sei pra onde ir. Eu não tenho ninguém, não tenho dinheiro... eu não sei como recomeçar.
Abri a minha bolsa. Tirei o meu talão de cheques e escrevi um valor que daria para ela se sustentar, alugar um apartamento e comer bem por longos meses sem precisar se preocupar com nada. Em seguida, peguei o cartão dourado do Simon, o advogado amigo do Noah que ajudou com a adoção do José e da Athena, e com a guarda dos meus filhos ao Noah. Entreguei também o meu próprio cartão pessoal.
Empurrei tudo pela mesa até as mãos dela.
— Esse é o número de um dos melhores advogados de Nova York. Ele é amigo do meu marido. Ligue pra ele e diga que foi a Juliet Blake quem mandou. Ele vai garantir que o monstro que fez isso com você nunca mais chegue perto da sua filha, e sem cobrar um único centavo. — Apontei para o segundo cartão. — E esse é o meu celular pessoal. Você me liga. Quando achar que vai fraquejar, você me liga e eu vou te segurar. Você não está mais sozinha.
— Você nem me conhece… — ela murmurou olhando para os papéis, incrédula.
Estendi minhas mãos para ela, e disse meu nome mais uma vez.
— Juliet Blake.
— Rose Callahan.
— Prazer em conhecê-la, Rose. — empurrei mais uma vez em sua direção o cheque e os cartões.
Rose manteve os olhos fixos nos cartões e no cheque, soluçando tão forte que mal conseguia respirar.

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