Capítulo 349 — O Criador de Milagres
Elijah Cross
Eu passei a minha vida inteira cercado por milagres. Como obstetra chefe de um dos maiores hospitais de Nova York, as minhas mãos foram as primeiras a segurar a vida de dezenas de bebês. Eu trouxe meu afilhado Logan e seu irmão Luke, o Eros, a Layla, a Íris, a Arianna, e agora a pequena Carina, filha da minha irmã, ao mundo. Eu via a emoção crua rasgar o rosto dos pais, via homens letais como o Dom e o Juan chorarem como crianças ao ouvirem o primeiro choro de seus filhos. Eu era o homem que entregava o milagre.
Mas, no fundo, quando eu tirava o jaleco e voltava para a minha cobertura vazia, o silêncio me lembrava que eu era apenas um espectador. Eu entregava a felicidade aos outros, mas não a possuía.
Isso até a Mia cruzar o meu caminho e virar o meu mundo meticulosamente organizado de cabeça para baixo.
Olhei para a pequena caixa de veludo preto que estava sobre o balcão da ilha da minha cozinha. O diamante solitário ali dentro era clássico, elegante e discreto. Exatamente como ela.
A nossa dinâmica era um segredo silencioso e perfeito. Na cama, eu era o Dominador dela. Eu exigia o controle, a submissão, e a levava aos limites do próprio corpo com uma autoridade que a fazia tremer e se desfazer nos meus braços. Mia era a garota doce e recatada que havia encontrado a sua libertação ao se render completamente a mim. Mas, assim que a porta do quarto se abria para a vida real, a dinâmica se invertia. No dia a dia, eu era o homem que venerava o chão por onde ela andava. Eu adorava cuidar dela, cozinhar para ela, massagear os pés dela depois de um longo dia de trabalho, e garantir que a minha mulher nunca duvidasse de que era o centro do meu universo.
O som do elevador privativo se abrindo me tirou dos meus pensamentos. Escondi a caixinha de veludo no bolso da minha calça de alfaiataria no mesmo segundo.
Mia entrou na sala, tirando os sapatos de salto baixo com um suspiro exausto. Ela usava um vestido floral simples, os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo solto. Mesmo cansada depois de um dia inteiro cuidando da Dona Marina e ajudando na creche improvisada da família, ela era a visão mais linda que os meus olhos poderiam contemplar.
Caminhei até ela, fechando a distância antes mesmo que ela pudesse colocar a bolsa no sofá.
— Boa noite, meu amor. — Sussurrei, envolvendo a cintura fina dela com os meus braços e puxando o seu corpo para colar no meu.
Mia encostou a bochecha no meu peito, soltando um longo suspiro de alívio, e passou os braços ao redor do meu pescoço.
— Boa noite, amor. Senti a sua falta hoje.
Dei um sorriso bobo, depositando um beijo demorado no topo da cabeça dela, aspirando o cheiro doce de baunilha que era a marca registrada da minha mulher.
— Eu preparei o jantar. A sua massa preferida. E a banheira já está cheia com água quente e sais de banho, só esperando por você.
Ela levantou o rosto, os grandes olhos castanhos brilhando de surpresa e adoração. As bochechas dela coraram levemente, aquele rubor adorável que eu amava provocar.
— Você teve um plantão exaustivo hoje, Elijah. Não precisava fazer tudo isso pra mim.
Toquei a ponta do nariz dela com o meu dedo indicador, com um sorriso carregado de ternura.
— Cuidar de você é a melhor parte do meu dia, Mia. Vai tomar o seu banho. Eu sirvo o jantar na varanda.
Cerca de quarenta minutos depois, nós estávamos sentados na varanda espaçosa da minha cobertura. A noite de Nova York brilhava ao nosso redor, e o clima quente do verão tornava tudo mais agradável. A luz das velas iluminava o rosto da Mia, que agora vestia um roupão de seda curto e tinha os cabelos soltos e úmidos.
Nós jantamos em meio a conversas calmas, rindo sobre as loucuras que as crianças tinham aprontado na casa da Ju naquele dia. Mas, por dentro, o meu coração batia tão forte que eu temia que ela pudesse escutar.
Quando terminamos, me levantei, peguei a mão dela e a puxei delicadamente para que ela se levantasse também. Abracei a cintura dela por trás, e nós dois ficamos encostados no parapeito de vidro, olhando para as luzes da cidade.
— Nova York é tão linda daqui de cima. — Ela murmurou, encostando a cabeça no meu ombro.
— É sim. — Concordei, a voz saindo um pouco mais grave do que o normal. — Mas eu passei a minha vida inteira olhando para essas luzes, e elas nunca significaram nada, até você estar aqui do meu lado para olhar para elas comigo.
Mia se virou nos meus braços, os olhos já transbordando aquela emoção pura que a definia.
Respirei fundo, sentindo o peso do anel no meu bolso. Afastei-me um passo, segurando a mão direita dela, e, com a firmeza de um homem que finalmente encontrou o seu propósito, me ajoelhei diante dela.
Mia levou a mão livre à boca no mesmo milésimo de segundo. Um soluço abafado escapou dos lábios dela, e os olhos castanhos se encheram de lágrimas instantaneamente.
Tirei a caixa de veludo preto do bolso e a abri. O diamante brilhou contra a luz da cidade, mas o brilho não chegava aos pés da luz que a mulher na minha frente irradiava.


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