Capítulo 346 — Até Depois da Morte
Juliet Blake
A escuridão foi, aos poucos, perdendo a força. O primeiro sentido que voltou a funcionar foi o olfato, mas, em vez do cheiro acre de fumaça e gasolina que infestava os meus pesadelos, os meus pulmões foram preenchidos pelo aroma limpo e estéril de álcool e antisséptico. A minha garganta ardia como se eu tivesse engolido vidro moído, e o meu corpo pesava toneladas.
Tentei abrir os olhos. A luz branca do teto do quarto de hospital me obrigou a piscar várias vezes. O som de um monitor cardíaco bipava de forma ritmada e constante ao meu lado.
Antes mesmo que eu conseguisse focar a visão, senti o aperto firme, quente e desesperado de duas mãos grandes envolvendo a minha mão direita.
Virei o rosto devagar no travesseiro. Noah estava sentado numa poltrona ao lado da cama, curvado para a frente, com o rosto afundado nas nossas mãos entrelaçadas. Ele vestia uma calça de moletom e uma camiseta preta amarrotada. Os cabelos dele estavam bagunçados, e os ombros largos subiam e desciam em uma respiração pesada.
Tentei falar, mas a minha voz falhou. Um som áspero arranhou a minha garganta.
— Noah...
A cabeça dele ergueu-se num solavanco. Os olhos incrivelmente verde do meu marido estavam injetados, vermelhos e inchados, marcados pelo terror puro. Quando ele viu os meus olhos abertos, o ar pareceu finalmente voltar aos pulmões dele.
— Ju... minha vida. — Ele murmurou, a voz rouca e falha, levantando-se num pulo e inclinando-se sobre a cama para beijar a minha testa, as minhas bochechas, os meus olhos. As lágrimas dele molharam o meu rosto.
A minha mente ainda estava processando os fragmentos. O fogo. O George. O teto caindo. A porta arrombada. E então, a lembrança bateu no meu peito com a força de um soco.
— As crianças... — Arfei, tentando me sentar, a máscara de oxigênio atrapalhando a minha fala. — O Luke... o Ton! Noah, o Ton entrou no fogo!
Noah segurou os meus ombros com delicadeza, me deitando de volta no colchão, balançando a cabeça freneticamente com um sorriso banhado em lágrimas.
— Shhh, calma, meu amor. Fica calma. O Luke está bem, ele não tem um arranhão. As crianças estão seguras. — Ele apontou com o queixo para o outro lado do quarto. — E o nosso super-herói está bem aqui.
Girei a cabeça para a esquerda. Era uma suíte hospitalar dupla. Na cama perfeitamente alinhada à minha, Norton dormia um sono profundo e sereno. Ele estava com um acesso no braço largo e uma máscara de oxigênio no rosto, mas a pele estava limpa da fuligem. O meu gigante, com a mente de um menino, estava respirando em paz. O alívio foi tão avassalador que eu chorei, soluçando baixinho.
A porta do quarto se abriu com um leve rangido. Elijah entrou vestindo o jaleco branco sobre a roupa amassada, segurando duas pranchetas, com a expressão exausta, mas aliviada.
— Que bom que a Bela Adormecida resolveu acordar. — Elijah sorriu fraco, parando no pé da minha cama. Ele checou o monitor antes de suspirar. — Vocês dois inalaram uma quantidade perigosa de monóxido de carbono, Ju. O Ton desmaiou pela exaustão física e pela falta de oxigênio. Nós tivemos que entubar ele preventivamente por algumas horas, mas os pulmões de vocês são fortes. Algumas queimaduras de primeiro grau, arranhões, mas nada que vá deixar sequelas. Vocês vão ficar perfeitamente bem.
Fechei os olhos, agradecendo a Deus em silêncio.
— Obrigada, Eli... por tudo.
Elijah assentiu com um sorriso carinhoso, deu dois tapinhas no ombro do Noah e saiu do quarto em silêncio, percebendo que nós precisávamos daquele momento.
Assim que a porta se fechou, a represa do Noah arrebentou. O meu marido, o CEO que o mundo julgava ser feito de gelo e controle, desabou de joelhos ao lado da minha cama. Ele encostou a testa no meu braço, chorando como eu nunca o vi chorar. Era um choro rasgado, vindo das profundezas de uma alma que tinha acabado de olhar para o abismo.
— Eu achei que tinha te perdido. — Ele soluçou, os ombros largos tremendo violentamente. — Quando o teto do celeiro começou a cair... eu morri, Juliet. A minha alma saiu do corpo. Eu não saberia viver um único dia neste mundo sem você. Você é a minha razão de respirar.
Tirei a máscara de oxigênio do rosto com a mão trêmula e alcancei os cabelos dele, acariciando os fios, chorando junto com ele.
— Eu tô aqui, meu amor. Eu tô aqui. — Sussurrei, a voz arranhada. — O pesadelo acabou.
Um murmúrio abafado vindo da cama ao lado nos interrompeu.
— Mamãe...?
O meu coração deu um salto. Noah se levantou rapidamente, enxugando o rosto, e me ajudou a sentar. Apesar da tontura e da fraqueza, eu precisava ir até ele. Noah me amparou pela cintura, segurando o suporte do soro, enquanto eu dava os dois passos curtos que separavam as nossas camas.

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