Capítulo 73 – Cura e redenção
Noah Blake
Eu esperei muito tempo por isso.
Em tê-la assim, entregue e confiando em mim de corpo e alma.
Foram semanas me segurando, me contendo, me preparando para merecer cada centímetro dela. Juliet não era apenas uma mulher para mim. Era a cura. A calmaria depois de anos de guerra.
E agora, ao vê-la assim, vulnerável, linda, submissa, eu devia me sentir completo. Mas o som daquela palavra ecoou como um soco no estômago.
“Estrela.”
A palavra de segurança. A que pensei que nunca faria ela precisar usar. E ainda assim, saiu da boca dela… trêmula, quebrada, assustada.
Afastei-me de imediato. Ela tremia, os olhos vidrados, o peito subindo e descendo rápido demais. Meu coração simplesmente parou.
Droga.
Eu devia ter percebido. Eu devia ter parado antes. Eu devia lembrar que, da última vez que toquei o pescoço dela, ela reagiu igual: Respiração curta, olhar distante, choro e o pedido de pare.
Só que agora foi pior.
Porque agora ela confiava em mim o suficiente pra se entregar, e mesmo assim, eu falhei.
— Querida… — chamei, tentando conter o desespero.
Nada. Nem um piscar.
Me sentei ao lado da cama, e sem pensar, puxei o lençol para cobri-la. Depois me aproximei devagar, sentando e puxando seu corpo pequeno para o meu colo.
Ela estava fria. Quieta demais.
— Amor… — a palavra veio primeiro que o pensamento. — Olha pra mim… — pedi, com a voz embargada. — Tá tudo bem, eu parei. Tá tudo bem, Ju.
Demorou, mas ela piscou. Uma. Duas vezes. E então uma lágrima escorreu, meu peito doeu. Do tipo de dor que não tem conserto.
— Me perdoa… — sussurrei, encostando a testa na dela. — Eu devia ter parado antes. Devia ter lembrado…
Ela se encolheu um pouco nos meus braços, e o som que saiu dela partiu meu coração.
— Eu… eu estava com você… — disse baixinho, sem raiva, mas com medo. — E por um momento, eu não te vi mais. Eu vi ele.
Senti o ar sumir dos meus pulmões.
George.
O desgraçado que destruiu sete anos da vida dela. O homem que devia ser esquecido, mas ainda vivia nas cicatrizes que ela carregava no corpo e na alma.
— Eu sei, amor. — respondi, e a segurei mais firme, como se pudesse protegê-la até das lembranças. — Foi culpa minha. Fui um completo idiota.
Ela respirou fundo, tentando se recompor.
— Não foi culpa sua, Noah… eu… eu achei que estava pronta. Mas quando senti a sua mão no meu pescoço… — a voz dela falhou. — Foi como se eu estivesse lá de novo.
— Eu devia ter percebido. — repeti, sem conseguir me perdoar. — Droga, querida, eu devia ter percebido.
Ela levantou o rosto e me olhou. Os olhos estavam marejados, mas ainda assim, havia ternura ali.
— Você parou. — Juliet disse. — Ele nunca parava, essa é a diferença. — ela soltou o ar, e as lágrimas.
Fiquei sem palavras. Só a abracei mais forte. E fiquei ali, segurando a mulher que amo, enquanto o peso do que aconteceu caía sobre mim.
Depois de alguns minutos, ela respirou fundo, como se precisasse se recompor, e sussurrou:
— Eu tô tremendo…
— Tá tudo bem, querida. — sussurrei, beijando o topo da cabeça dela. — Tá tudo bem agora, não vou te machucar. Ninguém vai.
E naquele instante, eu soube que não adiantava me justificar. Eu só podia estar presente, sabia que o peso maior de tudo hoje não era só pelo ato de enforcá-la, pois no dia em que acordei do meu sonho eu também a machuquei.
Mas era a lembrança dele, e a de saber que ele estava por perto.
Passei os braços em volta dela e a segurei como se pudesse impedir o passado de alcançá-la.
Ficamos em silêncio por um tempo, o suficiente pra respiração dela se acalmar. Mas o tremor não passava.
— Vem comigo. — falei por fim, me levantando com ela no colo.
Levei-a até o banheiro. A luz amarelada, o som suave da água enchendo a banheira, tudo que eu queria era tirar o peso daquela cena do corpo dela.

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