Capítulo 336 — A Cura
Elijah Cross
O som da porta do quarto se fechando atrás de mim foi o divisor de águas entre o milagre que acabara de acontecer e a realidade que me aguardava do lado de fora. Deixei o Dominic chorando de alívio com a Taylor e a pequena Arianna aninhadas na cama. O meu trabalho como médico havia terminado, mas a exaustão física e emocional que pesava sobre os meus ombros era indescritível.
Caminhei a passos lentos pelo corredor branco e silencioso do hospital. A luz azulada da madrugada já começava a dar lugar aos primeiros raios de sol da manhã. Foi então que eu a vi.
Mia estava parada alguns metros à frente, encostada na parede fria do corredor. Ela ainda usava o pijama cirúrgico manchado de suor, os braços cruzados sobre o peito e o olhar distante. Desde o momento avassalador em que ela me encontrou desabado no chão, secou as minhas lágrimas e me ofereceu o abraço que me salvou, nós não tínhamos trocado uma única palavra. Fui engolido pela burocracia do hospital, assinei os prontuários, passei para checar a bebê na UTI neonatal e a loucura nos impediu de conversar.
Parei na frente dela. Os grandes olhos castanhos subiram para encontrar os meus, e o meu coração, que já tinha sido testado ao limite hoje, falhou uma batida.
— Por que você não foi embora descansar, Mia? — Perguntei, a voz rouca e cansada. — Já está amanhecendo. A noite foi um inferno de exaustiva.
Ela descruzou os braços, me olhando com uma intensidade que me desarmou por completo.
— Eu estava esperando por você. A Esther e o Declan já foram embora, mas... eu ainda queria falar com você, Elijah.
Encostei na parede ao lado dela, virando o rosto para admirá-la. O cansaço não diminuía em nada a beleza dessa mulher.
— O que você queria conversar?
Mia suspirou, pegando suavemente na minha mão. O simples toque dos dedos dela contra a minha pele enviou uma corrente elétrica pelo meu corpo.
— Aqui não. — Ela sussurrou.
Sem esperar resposta, ela me puxou pelos corredores até o vestiário dos médicos, onde as nossas roupas haviam ficado antes de toda a loucura cirúrgica começar. Tranquei a porta atrás de nós. O ambiente estava em silêncio.
Começamos a tirar os pijamas cirúrgicos descartáveis. Não pude evitar um sorriso fraco, um misto de nostalgia e desejo, ao observá-la. Lembrei de quando nos conhecemos, de como a Mia morria de vergonha de ser vista, de como ficava vermelha por qualquer proximidade. Mas hoje, ela parecia não se importar mais.
Ela tirou a blusa e a calça do hospital, ficando apenas com um conjunto de lingerie de renda preta na minha frente. A pele macia, as curvas delicadas... Ao vê-la ali, tão exposta e tão perfeitamente linda, a vontade de agarrá-la, encostá-la naqueles armários de metal e me declarar como um louco me corroeu por dentro. Mas eu resisti. Eu precisava saber onde eu pisava.
Nós nos trocamos rapidamente. Vesti a minha camisa social e a calça do terno, e ela recolocou o deslumbrante vestido vinho de madrinha. Quando saímos do vestiário, Mia deslizou a mão pela minha, entrelaçando os nossos dedos com naturalidade. Aquele gesto simples fez o meu peito se expandir. Para mim, era um sinal. Talvez, apenas talvez, ela tivesse me perdoado.
Eu tinha sido um covarde racional. Quando decidi ir para a Europa fazer a especialização, impus uma distância pelo próprio bem dela ou pelo menos foi a mentira que contei a mim mesmo. Eu não queria fazê-la viver a agonia de um relacionamento a distância quando eu nem mesmo sabia exatamente quando voltaria, e quando a minha própria cabeça estava cheia de dúvidas sobre o que eu realmente sentia. Mas a distância foi o meu pior castigo. Ao ficar longe da Mia, o silêncio e a saudade me ensinaram da pior forma que eu a amava. Eu a amava pra caralho. E, naquele momento, caminhando de mãos dadas com ela para fora daquele hospital, tudo o que eu mais queria era despejar isso em cima dela.
Saímos para o ar fresco da manhã de Nova York. Na confusão do casamento, eu havia deixado o meu carro no The Plaza Hotel. Noah já tinha me mandado uma mensagem avisando que havia mandado um dos seus seguranças buscar o veículo e levá-lo para a garagem do prédio dele, que ficava na mesma quadra da minha cobertura.
Acenei para um táxi amarelo que passava. Abri a porta para ela e me acomodei ao seu lado no banco de couro gasto.
— Minha casa? — Perguntei, olhando nos olhos dela.
Mia assentiu em silêncio.
O trajeto pelas ruas que começavam a acordar foi feito em um silêncio absoluto. Ela não soltou a minha mão em nenhum momento, e o polegar dela acariciava as costas da minha mão de forma reconfortante. Ela não me afastava, mas algo ainda se remexia violentamente dentro do meu peito. Eu não sabia o que ela queria conversar. Eu não sabia se aquele toque era apenas o carinho de uma amiga após uma noite traumática, ou se ela me amava como eu a amava. O medo da rejeição era esmagador.
Quando o táxi parou em frente ao meu prédio, pagamos a corrida e subimos pelo elevador privativo.
Assim que as portas se abriram direto na sala espaçosa da minha cobertura, o silêncio voltou a pesar. Olhei para ela, que ainda estava deslumbrante, mas claramente exausta dentro daquele vestido de festa pesado.
— Você quer que eu peça para o Gayer ou para alguém trazer uma roupa para você? — Perguntei, tentando quebrar o gelo. — Você ainda está com o vestido de madrinha, deve estar incomodando.
Mia sorriu, um sorriso doce e carregado de uma intenção que fez a minha garganta secar. Ela caminhou na minha direção, parando tão perto que eu podia sentir o calor do corpo dela.
— Uma camiseta sua serve. — Ela respondeu, a voz macia, olhando para a minha boca. — Depois dessa noite, tudo o que eu quero é tirar esse vestido, tomar um banho e deitar em uma cama macia.
A minha sanidade, que já estava por um fio, arrebentou. Fechei a mínima distância que restava entre nós, passando a mão com firmeza pela cintura fina dela, colando nossos corpos.
— Querida, isso tá me matando... — A confissão escapou dos meus lábios, crua e desesperada. Encarei os olhos castanhos dela, deixando todas as minhas barreiras caírem. — Eu preciso saber. Você me perdoou por ser um idiota e ter te deixado aqui? Por não ter tido a coragem de sugerir um relacionamento a distância? Mia, eu preciso que você saiba que, em todos esses meses, eu não fiquei com ninguém. Eu sequer cogitei essa possibilidade, porque...
Eu não consegui terminar a frase. Mia segurou o colarinho da minha camisa, ficou na ponta dos pés e me calou, puxando a minha boca para a dela em um beijo que me roubou o resto do fôlego que eu tinha.
O gosto dela, a maciez dos lábios, o fogo que explodiu no meu sangue... foi como voltar a respirar depois de meses afogando. Agarreia-a pela cintura e a levantei do chão. Mia envolveu as pernas ao redor do meu quadril imediatamente, aprofundando o beijo enquanto eu caminhava com ela pelo corredor escuro até o meu quarto.

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