Capítulo 334 — O Milagre e a Promessa
Elijah Cross
As portas duplas da sala de cirurgia bateram atrás de mim com um estrondo surdo, isolando o caos do corredor e o desespero do Dominic do lado de fora. A partir daquele milésimo de segundo, eu não era mais o amigo da família. Eu não era o convidado de um casamento de luxo. Eu era o obstetra dela. E a vida da mulher deitada naquela mesa fria estava escorrendo por entre os meus dedos a cada bipe acelerado do monitor cardíaco.
A pré-eclâmpsia é um monstro cruel, silencioso e devastador. Ela eleva a pressão arterial a níveis astronômicos, sobrecarrega os órgãos e, se não for interrompida a tempo, causa danos neurológicos, convulsões e a morte. O corpo da Taylor estava entrando em colapso.
— Anestesia geral induzida! Ela está apagada! — O anestesista gritou da cabeceira da mesa.
— Bisturi! — Ordenei, estendendo a mão espalmada.
A enfermeira bateu o cabo de metal na minha luva. Esther se posicionou imediatamente do outro lado da maca, operando como a minha primeira assistente. Nossa sincronia como irmãos sempre foi perfeita, mas o silêncio entre nós dois agora era carregado de um pavor mudo. Era a nossa amiga ali. Era a garota que todos chamavam de maloqueira, a que fazia a nossa família rir, a mulher que o Costello amava mais que a própria existência.
O tempo era o nosso maior inimigo. Com movimentos precisos, rápidos e calculados, eu abri as camadas de tecido. A tensão na sala era palpável, o ar-condicionado no máximo gelava o suor que escorria pela minha testa.
— Afastador... aspirando fluido... — Eu murmurava as ordens em um ritmo frenético.
Esther estancava os vasos enquanto eu alcançava o útero.
— Cuidado, Eli, a pressão dela ainda está muito instável. Cento e noventa por cento e vinte (19/12). Ela é uma bomba-relógio agora. — A voz da minha irmã soava abafada pela máscara, mas eu conhecia o tom de alerta máximo.
— Eu sei, Esther. Eu sei. Vem cá, garotinha... — Falei baixinho, mergulhando as mãos.
No minuto seguinte, o peso quente e escorregadio preencheu os meus braços. Puxei a bebê para fora do útero. Arianna era grande, perfeitamente formada. Uma fração de segundo depois, o som mais lindo e aliviante que existe na obstetrícia ecoou pela sala fria. O choro da bebê. Alto, forte, rasgado e cheio de vida.
— Nasceu. É uma menina linda, saudável e com pulmões de aço! — Avisei, a voz embargada por um instante de puro alívio. Entreguei a pequena Arianna rapidamente para a equipe neonatal, que já estava com a incubadora aquecida esperando. A primeira parte do milagre estava feita.
Mas a comemoração não durou nem cinco segundos.
O som do monitor cardíaco da Taylor, que bipava em um ritmo perigosamente acelerado, mudou bruscamente. Deixou de ser um bip-bip-bip para se tornar um som arrastado, irregular e bizarro.
Olhei para a tela. A linha verde despencou em um pico desenfreado. Fibrilação ventricular. O coração dela estava tremendo em vez de bombear sangue.
— A pressão dela zerou! — O anestesista berrou, os olhos arregalados de pânico por cima da máscara.
E então, o som contínuo e agudo rasgou os meus tímpanos. O bipe longo, constante e assustador da assistolia. Linha reta. A Taylor teve uma parada cardiorrespiratória. O coração dela simplesmente parou.
— PARADA! — Esther gritou, o profissionalismo cortando o ar enquanto ela largava as pinças e pulava para a cabeceira da maca, já posicionando as mãos sobrepostas no peito aberto da nossa amiga. — Iniciando compressões! Um, dois, três...
O meu mundo parou de girar. A visão do corpo inerte da Taylor, conectada a tubos, o peito sendo esmagado pela Esther na tentativa desesperada de bombear sangue artificialmente para o cérebro, ativou um desespero que eu nunca tinha sentido em todos os meus anos de medicina.
— Adrenalina! Um miligrama, agora! — Gritei para a Mia, que corria pelo carrinho de parada com as mãos tremendo, mas sendo rápida e eficiente. — Fechem o útero o mais rápido que puderem, eu assumo as compressões!
Troquei de lugar com a Esther. Apoiei as duas mãos no esterno da Taylor e comecei a empurrar com toda a força do meu corpo.
Um, dois, três, quatro, cinco... Cada compressão era um soco na minha própria alma. O suor pingava do meu rosto. A sala virou um pandemônio de ordens, seringas, sangue e contagens frenéticas. O tempo corria, impiedoso. Um minuto. Dois minutos. Três minutos.
Nada. A linha verde no monitor continuava perfeitamente e miseravelmente reta. O som contínuo do aparelho era o som da morte anunciando sua chegada.
— Mais um de adrenalina! — Ordenei, a voz falhando, os meus braços já queimando de dor pelas massagens cardíacas contínuas.
Mia aplicou a medicação. Olhei para a minha irmã. Esther estava pálida, os olhos azuis idênticos aos meus estavam cheios de lágrimas. Quatro minutos. As chances de retorno sem sequelas cerebrais começavam a cair drasticamente. O silêncio na sala pesava toneladas.
Continuei empurrando o peito dela. O rosto da Taylor estava acinzentado.
— VAMOS LÁ, TAY! — Gritei, a minha voz quebrando o protocolo silencioso da medicina, ecoando o desespero do amigo que não aceitava perder. — VAI MESMO DEIXAR A ARIANNA, O SEU MILAGRE, PRA TRÁS?!
O peito dela afundava sob as minhas mãos e voltava. Nada. Nem um único batimento elétrico.
Esther colocou a mão ensanguentada sobre o meu ombro. O toque dela era de pura derrota.
— Eli... — A voz da minha irmã saiu como um soluço rasgado. — Eli, já passou muito tempo. Ela não está respondendo. O coração não volta... não tem mais o que fazer.

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