Capítulo 332 — A Santa e o Caos
Taylor Laurent
Encarei o meu reflexo no espelho de corpo inteiro do nosso quarto e soltei um suspiro pesado que me faltou o ar. Eu estava com exatos nove meses de gestação. Se alguém me dissesse há alguns anos que eu, Taylor Laurent, a “garota de programa” desbocada, estaria ostentando uma barriga gigantesca em um vestido de gala feito sob medida, eu teria rido na cara da pessoa e mandado ela ir à merda.
Eu era, literalmente, uma melancia ambulante.
Passei as mãos pela curvatura da minha barriga, sentindo um chute forte bem nas minhas costelas.
— Calma aí, Arianna. Fica quieta que o seu espaço já tá acabando. — Resmunguei para o espelho.
Arianna. O nome tinha sido escolhido pelo Dom. Segundo o meu grandão, com aquela postura protetora de agente federal babão, Arianna significava "a mais Santa". Ele dizia, com os olhos azuis brilhando, que era exatamente isso que a filhinha dele seria: uma santa, imaculada e pura.
Eu só conseguia gargalhar internamente toda vez que ele repetia isso. Uma santa? Com o meu DNA de quem cresceu batendo carteira e brigando na rua, misturado com a possessividade e o sangue frio do Dom? Essa garota ia dar mais trabalho que um esquadrão inteiro junto.
Mas, no fundo, eu só queria que essa menina saísse de mim o mais rápido possível, e de preferência, do mesmo jeito que a Iris saiu da Penny. Nossa, a filha do Chris já estava com um mês de vida e era a coisa mais linda que existia no universo. E o parto da Penny? Uma piada. A mulher deu três espirros no hospital e a bebê simplesmente escorregou para o mundo. Eu exigi de Deus que o meu parto fosse daquele jeito.
Fui tirada dos meus pensamentos quando a porta do closet se abriu e o meu noivo saiu de lá. Dom estava vestindo um smoking preto impecável, o cabelo loiro alinhado e aquele cheiro de perfume amadeirado que fazia as minhas pernas tremerem, mesmo com vinte quilos a mais.
Ele parou atrás de mim, os olhos escurecendo de desejo ao me ver pelo reflexo do espelho. As mãos grandes e quentes dele envolveram a minha cintura por trás, apoiando-se no peso da minha barriga.
— Precisa de ajuda com o zíper, meu amor? — Ele sussurrou, beijando a curva do meu pescoço, causando um arrepio na minha espinha.
— Preciso. Meus braços não alcançam mais nada nessa vida. — Respondi, rindo fraco.
Dom subiu o zíper do meu vestido esmeralda com delicadeza. Ele virou o meu corpo devagar, me encarando com aquela devoção absoluta que me desarmava por inteira. Ele se abaixou, ficou de joelhos na minha frente e deixou um beijo demorado bem no meio da minha barriga esticada.
— Vocês duas são a minha vida, sabia? — Ele murmurou contra o tecido do vestido, olhando para cima para encontrar os meus olhos. — Eu nunca imaginei que seria possível amar alguém da forma como eu amo você, Taylor. Você me deu um propósito. Você me deu um lar.
Passei a mão por seus cabelos, sentindo os meus olhos arderem. Eu amava esse homem incondicionalmente. O meu agente federal perigoso e rendido.
— Eu também te amo, grandão. Mas levanta logo daí, senão a gente vai atrasar para o maior evento do século.
E não era exagero. Hoje era o dia do casamento. Não apenas um, mas um casamento triplo. José e Athena, Sammy e Atlas, Juan e Esther. A cidade de Nova York estava prestes a parar, porque o evento aconteceria no majestoso Grand Ballroom do The Plaza Hotel.
Quando chegamos ao Plaza, o lugar estava um verdadeiro desbunde. Lustres de cristal gigantescos, milhares de rosas brancas e vermelhas, e um luxo que cheirava a dinheiro velho. Nós chegamos acompanhados da Mia e da Dona Marina. Mia havia voltado a ser cuidadora da Marina em tempo integral, mas eu vinha notando que ela andava bem alheia e tristonha pelos cantos.
Nós tínhamos conversado há algumas semanas. Mia e Elijah chegaram a sair algumas vezes, a química deles era explosiva, e todos nós apostávamos que eles iam se assumir logo. Mas o obstetra certinho foi para a Europa fazer uma especialização logo depois dos nascimentos do Eros e da Layla. Ele já estava fora há cinco meses e deixou claro que não queria manter um relacionamento a distância. Ele prometeu à Esther que tentaria vir para o casamento, mas até agora, ninguém sabia se o cara ia aparecer ou não.
Assim que entramos no salão, fui direto para o carrinho onde o pequeno Eros, meu afilhado de cinco meses, estava resmungando. Peguei o garotinho gordinho e cheiroso no colo, e ele abriu um sorriso banguela para mim.
— Oi, meu amor! A dinda tá aqui! — Falei, beijando a bochecha gorda dele.
Fomos nos acomodar nos lugares reservados para a família. Foi exatamente na hora em que me sentei que a pontada no pé da minha barriga, que estava me incomodando desde cedo, voltou com força. Dei uma leve travada no maxilar, respirando fundo e arrumando a postura.
Mia, que estava sentada na cadeira ao lado arrumando o xale da Marina, estreitou os olhos na minha direção. O radar de enfermeira da garota apitava de longe.
— Tay? Você está pálida. Tá sentindo alguma coisa?
Dei o meu melhor sorriso cínico, balançando o Eros no colo.
— Relaxa, Mia. É só o peso. Essa garota tá esmagando a minha bexiga, só isso.
Eu não ia falar a verdade de jeito nenhum. Eu já aguentei porrada, já tomei tiro, já passei por coisas piores. De jeito nenhum eu ia ser o centro das atenções e estragar o dia mais importante da vida das minhas melhores amigas. Se a Arianna estava querendo dar o ar da graça hoje, ela que cruzasse as pernas e esperasse aquela festa acabar.
Como eu havia me recusado terminantemente a ficar de pé lá na frente do altar, redonda desse jeito e parecendo um planeta orbitando as noivas, Mia acabou assumindo o meu posto. Ela seria a madrinha ao lado da Ju, Penny e Jen. E como o Dom bateu o pé e ameaçou prender todo mundo se fosse obrigado a desgrudar do meu lado hoje, o Oliver acabou aceitando ser o par da Mia. O garoto tinha vindo da Espanha para conhecer a sobrinha e foi muito gente boa em aceitar ser padrinho mesmo que do casamento do José e da Athena.
E pra ser sincera eu não entendo que mania é essa de rico querer encher de gente lá na frente.
As luzes do salão diminuíram e a orquestra começou a tocar os primeiros acordes.
A porta dupla de madeira entalhada se abriu, e um suspiro coletivo ecoou pelo Grand Ballroom. As noivas começaram a entrar. Sammy, Athena e Esther pareciam verdadeiras rainhas, cada uma com um estilo impecável de vestido branco, caminhando por um tapete de pétalas em direção aos homens que choravam copiosamente no altar.
Dom se inclinou, pegou o Eros do meu colo com facilidade e encostou o rosto perto do meu ouvido.
— A próxima a estar vestida de noiva, caminhando na minha direção, é você, minha pincher.
Olhei para o meu grandão, emocionada, e dei um selinho rápido nos lábios dele.

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