Capítulo 329 — O Expresso Rivera
Samantha “Rivera”
— Ninguém janta hoje! As duas pro hospital! AGORA!
O grito do Elijah reverberou pelas paredes do apartamento do Noah, mas, honestamente, tudo o que se seguiu pareceu acontecer em câmera lenta e ao mesmo tempo no dobro da velocidade.
Enquanto a dor rasgava o meu ventre com uma intensidade que eu nunca, em toda a minha vida, sequer imaginei que fosse possível, uma parte do meu cérebro a parte que ainda não estava anestesiada pelo desespero achou toda aquela situação hilária e tragicamente cômica. Qual era a probabilidade matemática de duas mulheres, grávidas do mesmo tempo, romperem a bolsa amniótica no exato mesmo milésimo de segundo, no meio da sala de estar, sujando o tapete persa caríssimo da anfitriã? Era um sincronismo caótico que só a nossa família disfuncional e intensa conseguiria produzir.
Mas a vontade de rir durou exatamente até a segunda contração me atingir. O ar foi expulso dos meus pulmões e eu dobrei o corpo sobre a minha própria barriga, soltando um gemido longo e sofrido.
O pandemônio ao meu redor era ensurdecedor. De um lado, Declan carregava a Jenny como se ela pesasse dois quilos, correndo para o elevador enquanto Elijah dava ordens médicas. Do meu lado, a situação era uma verdadeira guerra de egos masculinos e desespero.
Atlas estava branco. Pálido como um fantasma. O meu noivo, o Dom implacável, frio e calculista que eu conhecia, havia simplesmente desaparecido. No lugar dele, havia um homem em pânico absoluto.
— Samantha! Meu Deus! Respira, meu amor, calma! — Atlas gritava, as mãos tremendo enquanto tentava me segurar pelos ombros, sem saber se me puxava para cima ou se me deixava sentada. Ele estava hiperventilando mais do que eu.
Juan Rivera surgiu como uma sombra gigantesca, empurrando o ombro do Atlas para o lado sem a menor cerimônia.
— Eh Cabrón, ela só tá parindo, não tá morrendo! — Meu agora pai Juan Rivera rosnou, a voz grossa ecoando na sala. — Você está deixando mi hija mais nervosa com esse seu desespero de amador! Sai da frente! — Ele olhou para mim e com aquele sorriso debochado me disse. — Hija prefere que tu papá te carregue ao invés desse engomadinho medroso?
Em meio a dor eu só consegui rir para o meu pai. E antes que o Atlas pudesse rebate-lo, José se meteu no meio dos dois, agarrando a minha bolsa de maternidade que a Athena havia jogado nas mãos dele.
— Puta merda, chega vocês dois! E deixem que eu carrego a minha irmã! Se vocês ficarem aí brigando, o meu sobrinho vai nascer no meio do tapete da Ju e sujar essa porra toda! Vem, Sammy, segura no meu pescoço!
Eu mal conseguia processar a discussão.
— AAAAAAAI! — Gritei de novo, sentindo o suor frio escorrer pela minha testa.
Athena, que estava segurando a minha mão esquerda com força, tentou apaziguar o furacão.
— Vocês três, parem de gritar agora mesmo! Vocês não estão ajudando em nada, caramba!
A discussão só foi interrompida quando Esther Cross, com toda a sua autoridade de cirurgiã-chefe e companheira do diabo, deu um passo à frente. O olhar dela era letal e silenciou os três homens instantaneamente.
— Se vocês três idiotas não calarem a boca e começarem a se mover de forma coordenada, eu mesma vou sedar cada um de vocês com um dardo tranquilizante! — Esther esbravejou, apontando o dedo na cara deles. — Juan, pegue o carro e ligue o motor. José, carregue as bolsas e limpe o caminho. E Atlas, para de ser um idiota desesperado, ajude a sua noiva a andar até o elevador. Mova-se!
A voz da Esther foi como mágica. Os três engoliram a seco e obedeceram. Atlas me pegou no colo com uma facilidade absurda, o peito dele subindo e descendo rápido, e nós fomos arrastados para a garagem do prédio.
Quando chegamos ao subsolo, a monstruosidade preta sobre quatro rodas que o Juan chamava de carro já estava com as portas abertas. Era uma SUV gigante de sete lugares, com bancos de couro blindados, que ele havia aparecido dirigindo na semana passada.
Atlas me colocou com todo o cuidado no banco do meio, sentando ao meu lado e segurando a minha mão como se a vida dele dependesse disso. Esther sentou do meu outro lado. Athena foi jogada para a última fileira de bancos lá atrás, e José assumiu o banco do carona, ao lado do pai.
Juan arrancou o carro cantando pneu no piso de cimento da garagem, mas assim que ganhamos as ruas de Nova York, a direção dele se tornou assustadoramente rápida e fluida. O coroa estava no seu elemento.
Ele bateu no volante de couro, ajeitando o espelho retrovisor para me olhar, e deu um sorriso convencido.
— Comprei essa belezinha exatamente para isso. Estão vendo o conforto? Espaço de sobra para carregar os meus netinhos em segurança e com estilo. Um carro de família.
José, que estava grudado no painel, segurando na alça do teto a cada curva fechada que o Juan dava, bufou pelo nariz.
— Menos, velhote. Por enquanto é só o Eros que tá aí dentro. Faltam lugares pra encher.
Juan fechou a cara imediatamente, fuzilando o José com o olhar.
— E de quem é a culpa disso, cabrón? Trate de casar logo com a Athena e me dê mais netos. Essa SUV não foi barata, eu preciso fazer o investimento valer a pena! Quero esse carro cheio de crianças.
Lá do banco de trás, Athena ficou branca como papel. Ela se esticou, segurando o encosto do meu banco.
— Deus me livre e me guarde, Juan! Pelo menos não agora! Olhando o estado da Sammy, eu não tô pronta pra sentir uma dor desse jeito, não! Eu quero morrer só de ver!
— É uma dor do caralho, Athena! AAAAAAI, PORRA! — Gritei, fechando os olhos com força e apertando a mão do Atlas até os ossos dos dedos dele estalarem. A contração veio como uma onda de fogo, esmagando os meus quadris.
Atlas beijou o meu rosto suado, a voz trêmula beirando o pânico.
— Respira, meu amor... Fica calma. Olha pra mim, amor, respira fundo. Nós já estamos chegando, falta pouco. Vai ficar tudo bem, só tenta manter a calma.
Juan cortou um táxi amarelo pela direita, buzinando agressivamente, antes de rebater o meu noivo.

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