Capítulo 319 — A Reivindicação
Juan Rivera (Snake)
A dor foi a primeira coisa que me deu as boas-vindas. Um lembrete denso e latejante no meu abdômen e nas costelas de que eu ainda estava respirando.
Puxei o ar com dificuldade, a mente clareando aos poucos enquanto as memórias invadiam a escuridão. O clarão do disparo. O impacto duplo. Lembrei do rosto do José, o pavor cru e infantil desconstruindo a marra do meu garoto ao me ver cair. E depois, lembrei dela. Os olhos de Esther gravados na minha retina. Não havia medo naqueles olhos intensos, mas sim uma fúria absoluta. Uma determinação inabalável de não deixar a morte ousar me levar das mãos dela.
Tentei me mexer no colchão do hospital e um gemido rouco escapou da minha garganta.
Abri os olhos, a claridade branca ofuscando minha visão por um segundo. Olhei para o meu corpo. Eu estava coberto por um lençol fino, o peito enfaixado e cercado pela porra de uma teia de aranha de fios, monitores e acessos venosos presos aos meus braços.
— M****a... — Xinguei, a voz saindo áspera.
Odeio hospitais. Odeio me sentir preso. Com um movimento brusco e ignorando a queimação nos meus músculos costurados, comecei a arrancar aquelas fitas colantes da minha pele, puxando a agulha do acesso do dorso da minha mão. Joguei os fios para o lado e forcei os cotovelos contra o colchão para me sentar.
Foi exatamente nessa hora que a porta do quarto se abriu num solavanco.
E por ela passou uma mulher com fogo nos olhos, irradiando uma irritação que poderia incendiar o andar inteiro. Esther usava o jaleco branco aberto, a postura de quem estava pronta para cometer um assassinato.
Sorri de canto ao vê-la, o peito aquecendo. Eu estava esperando um olhar de alívio, uma carícia suave, talvez algumas lágrimas emocionadas por me ver acordado.
Mas o que veio foi um furacão.
— O que você pensa que está fazendo, Juan Rivera?! — Ela esbravejou, marchando até a beirada da minha cama, os olhos cravados nos fios que eu havia jogado no lençol. — Você acabou de sair de uma cirurgia de emergência! Você perdeu uma quantidade absurda de sangue e quase morreu na minha mesa! Deita agora!
Dei uma risada fraca, me recostando nos travesseiros com a marra de sempre.
— Cariño... eu estou bem.
Não sei como era possível, mas a expressão dela ficou ainda mais letal. O fato de eu não levar o meu estado de saúde a sério a irritava profundamente. Sem dizer mais nenhuma palavra, ela esticou a mão e apertou o botão de emergência na parede.
Em menos de dez segundos, Mia entrou correndo no quarto, parando abruptamente ao ver a cena.
— Mia. — Esther ordenou, a voz estritamente profissional e fria. — Traga uma nova bandeja de punção, esparadrapos e refaça a medicação intravenosa. O senhor Rivera, na sua infinita teimosia, decidiu que não precisava mais dos acessos. Vou ter que puncioná-lo novamente.
Continuei sorrindo, não tirando os olhos do rosto vermelho de raiva da minha mulher.
— Não seja tão brava, doutora. Eu só queria espaço para poder te abraçar.
Mia balançou a cabeça, segurando uma risada, os olhos divertidos alternando entre o meu sorriso provocador e a cara de poucos amigos da cirurgiã chefe.
— Já volto com as coisas, Doutora Cross. — Mia disse, saindo e fechando a porta atrás de si.
Assim que ficamos sozinhos de novo, Esther cruzou os braços, assumindo aquela postura de excelente médica que não aceitava insubordinação de pacientes.
Mas eu não queria a médica. Eu queria a Esther que, achando que eu estava sedado e não podia ouvir, sussurrou contra o meu rosto a declaração mais perigosa que já escutei. “Não precisa me fazer sua. Porque eu já sou.”

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