Capítulo 317 — Primeira coisa
Elijah Cross
Há alguns meses, o meu maior dilema em uma sexta-feira à noite era decidir qual terno usar para ir ao Paradise, que bebida pedir no bar e decidir qual mulher seria perfeita para minha sub de uma noite. Minha vida se resumia a plantões tranquilos, e a companhia dos meus melhores amigos em uma mesa regada a uísque caro.
Hoje, nosso único luxo era torcer para que todos nós encerrássemos o dia respirando.
Eu estava no saguão da emergência, com a equipe de trauma a postos e a sala cirúrgica totalmente montada. Assim que recebi a ligação desesperada do Declan sobre o desabamento, e minutos depois, a do Dom avisando que a bolsa da Ju havia estourado no meio do ataque ao prédio, não hesitei. Dei a ordem imediata: tragam todos para cá. Agora este era o meu hospital. Eu não deixaria a vida dos meus amigos nas mãos de estranhos.
As portas duplas da emergência se abriram com violência. Paramédicos gritavam, os rádios chiavam, e o cheiro denso de fumaça, poeira e cobre invadiu o corredor esterilizado. Declan e Atlas vinham logo atrás da maca, cobertos de cinzas e com os rostos em puro pânico.
— Trauma contuso severo! Vítima de soterramento! — O socorrista gritou, empurrando a maca.
Eu já estava lá, interceptando a equipe no mesmo segundo. Assumi a cabeceira da maca, guiando-os pelo corredor. Ver o rosto do meu amigo, coberto por uma crosta grossa de fuligem cinza e sangue doeu mais do que eu esperava. As roupas de grife estavam rasgadas e o peito dele subia e descia com uma dificuldade assustadora. Eu já esperava o pior cenário, mas ver o Noah quebrado daquele jeito era um choque de realidade. Mas eu não tinha tempo para sentir.
— Sala de trauma dois, direto! — Ordenei, com a voz inabalável. Olhei para o rosto pálido do meu amigo enquanto corríamos. — Noah... aguenta firme, irmão.
Comecei a avaliação primária em questão de segundos. As costelas do lado direito estavam fraturadas, possivelmente perfurando o pulmão. Havia cortes profundos e contusões espalhadas por todo o corpo, mas ele estava vivo. Como disse o Declan, a estrutura daquela lareira velha tinha feito um milagre, absorvendo o esmagamento, mas o impacto da onda de choque ainda havia cobrado seu preço.
— Preciso de um acesso venoso central e um dreno de tórax, agora! — Ordenei, pegando o bisturi.
Antes que a enfermeira circulante pudesse piscar, Mia já estava do meu lado. Ela entregou o tubo torácico na minha mão antes mesmo de eu terminar de pedir. Levantei os olhos para ela por um segundo. A postura firme, os olhos atentos, a respiração controlada. Mesmo no meio de todo aquele inferno, Mia mantinha aquele sorriso acolhedor e focado no canto dos lábios. Mentalmente, eu não cansava de elogiar essa mulher. Ela era brilhante.
O dreno foi inserido e o som do ar escapando do pulmão do Noah trouxe um alívio imediato para os monitores. Mas a pressão dele ainda estava perigosamente baixa.
Minutos tensos se passaram enquanto tentávamos estabilizá-lo, até que a porta da sala foi aberta com um chute. Esther entrou, já vestida com um novo avental cirúrgico, os olhos brilhando com a mesma determinação de sempre. Ela tinha acabado de salvar o Rivera e já estava ali, pronta para a próxima guerra.
Minha irmã assumiu o outro lado da maca imediatamente.
— Qual é o quadro, Elijah? — Ela perguntou, já avaliando os monitores.
— Pneumotórax hipertensivo resolvido com o dreno. Ele tem fraturas múltiplas nas costelas, laceração no braço e suspeita de hemorragia interna abdominal. A pressão está caindo de novo. Precisamos abrir e achar o sangramento. — Expliquei rápido, entregando o controle da situação para ela.
Esther assentiu, pedindo o bisturi. Estávamos prestes a iniciar a cirurgia quando a porta dupla da sala de trauma se abriu mais uma vez. Uma enfermeira da recepção entrou, pálida, os olhos arregalados.
— Doutor Cross! — Ela ofegou, olhando para mim. — A Juliet Pierce acabou de dar entrada. A bolsa estourou e ela está com contrações fortíssimas!
Gelei. Olhei para o Noah, sedado na mesa, e depois para a porta. Eu já estava esperando por ela, mas o tempo era meu maior inimigo. Os bebês eram prematuros. O estresse extremo tinha forçado a natureza e as coisas podiam se complicar muito rápido.
Esther levantou os olhos para mim do outro lado da mesa cirúrgica. O olhar da minha irmã era de puro comando.
— Vai, Elijah. — Ela ordenou, a voz inabalável.
— Mas o Noah...
— Do Noah cuido eu. — Esther me cortou, firme. — Você é o obstetra dela. Esses gêmeos precisam de você. Vai trazer os filhos do seu amigo ao mundo.
Eu sabia que ela tinha razão. Esther era a melhor cirurgiã daquele hospital. Noah não poderia estar em mãos melhores. Assenti, me afastando da mesa.
— Leve a Mia com você. — Esther completou, sem tirar os olhos da incisão que estava fazendo. — O restante da equipe fica comigo.

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