Capítulo 308 — Plano Metódico
Noah Blake
O cheiro da velha Mansão dos Blake sempre me deu náuseas. Era uma mistura de cera cara, tapetes antigos e segredos apodrecendo nas paredes. Eu passei a minha infância tentando fugir desse lugar, e a ironia do destino era que eu precisava voltar exatamente aqui para garantir que minha verdadeira família tivesse um futuro.
Minhas mãos suavam. Eu nunca havia carregado uma arma antes; já pratiquei em um estande com os caras, mas foi só isso. Praticar foi diversão. Mas hoje era diferente, o peso dela me incomodava porque junto vinha a responsabilidade e algo que nunca quis, que é… ser como ele. Descer ao nível do meu pai.
Respirei fundo, tentando acalmar os batimentos cardíacos enquanto me mantinha escondido nas sombras do mezanino superior.
O plano era metódico. Racional. Natanael havia entrado em contato com o irmão mais cedo, interpretando com perfeição o papel de covarde que Noel sempre esperou dele. Meu tio jurou a ele que havia marcado um encontro secreto comigo aqui, na velha mansão, com a desculpa de que me entregaria o paradeiro do meu pai para salvar a própria pele. A isca, porém, era o que vinha a seguir: Natanael disse a Noel que essa seria a chance de ouro para me pegar totalmente desprevenido. Uma traição forjada.
Era um prato cheio para o ego doentio do "Drácula". Noel nunca resistiria a essa oportunidade de me ver cair na mesma moeda. Ele não queria apenas atirar em mim; ele queria saborear a minha queda. Na cabeça deturpada dele, ser traído pela minha própria família e encurralado era a punição poética para o filho que teve a audácia de denunciar os abusos do Dylan anos atrás. Ele queria me destruir, me fazer pagar por ter arruinado a vida do monstro que ele tanto amava.
Mas o que meu pai não sabia era que a traição de Natanael era real, só que contra ele.
Meu tio e Marcela eram apenas a isca aguardando no centro do salão. Eu e meus irmãos de alma éramos a armadilha. Pelo ponto eletrônico no meu ouvido, eu ouvia a respiração constante de Snake, Dom, Chris e Declan, todos posicionados estrategicamente ao redor da sala. Lá fora, o perímetro estava selado por Marco, Sombra, Jay e os federais de confiança do Dom. O cerco estava fechado. Ninguém entrava, e Noel não sairia. Bem… não vivo.
Dom avisou: “O cretino chegou.”
Fechei os olhos por um segundo. A imagem da Juliet sorrindo na mesa do café hoje de manhã, a voz da Laurinha, o olhar inocente do Heitor e do Norton cruzaram minha mente. É por eles, repeti para mim mesmo.
As pesadas portas duplas de carvalho se abriram com um rangido arrastado. Noel Blake entrou no salão. A postura dele continuava a mesma que assombrou meus pesadelos de infância: coluna ereta, queixo erguido, a arrogância exalando de cada poro. O terno impecavelmente alinhado não combinava com a morte que ele carregava.
Logo atrás dele, George. Ouvi Chris rosnar ao ver o cretino. Meu amigo, assim como eu, não havia esquecido tudo o que ele fez à Ju por anos, e muito menos o que ele fez o meu garoto fazer contra si mesmo recentemente. Natanael e Marcela se mantiveram em posição, fingindo submissão, interpretando seus papéis de isca.
Mas algo estava errado. O ar no salão pareceu ficar mais rarefeito. Meu estômago afundou quando percebi que Noel não agia como uma presa que caiu numa armadilha. Ele não olhava para os cantos procurando perigo. Ele caminhava devagar, quase desfilando.
— Meu garoto ainda não chegou? — Meu pai perguntou ao meu tio.
— Ele me ligou há pouco, chega em breve.
— Pensei que o Noah fosse mais esperto, confiar em você dessa forma. — Noel disse a Natanael com um sorriso. Ouvi quando Snake comentou no ponto que nos ligava:
— Eu tenho esse cretino na mira, um tiro e isso acaba.
— Também tenho, os dois, ele e George. Dois tiros e mando os malditos para o inferno. — Chris falou sussurrando, mas em um tom mortal.
Pensei na possibilidade, era para isso que estávamos ali. Um sinal meu, e tudo acabava. Mas foi como se meu pai tivesse o poder de ler a minha mente. Ele fez um sinal para George, e em segundos dois homens entraram.
Eles empurravam uma pessoa que caminhava com dificuldade, tropeçando nos próprios pés. O corpo inteiro estava coberto por uma túnica grossa e preta, e um capuz escondia o rosto. Os homens pararam a figura bem na frente do Noel; ele usava quem quer que fosse como escudo.
— Podem ir. Mantenham o plano. — Meu pai disse aos homens. Meu tio olhou na direção onde sabia que eu estava e pude ver em seus olhos a mesma confusão que deveria estar nos meus.
Isso não estava nos nossos planos. Noel tinha que estar sozinho. No máximo com o lixo humano do George ao seu lado.
— Você pode sair das sombras agora, Noah. — A voz de Noel reverberou pelas paredes de mármore. Ele parou no centro do salão, um sorriso sádico desenhando seu rosto. — Eu sei que você está aí. Eu sei que todos os seus cães de guarda estão aí.
— Merda! — Dom xingou pelo ponto.

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