Capítulo 307 — O Fim do Escuro
José Alves
O escuro não é vazio. Ele é pesado. Quando as balas rasgaram meu corpo naquele asfalto frio, a dor foi a primeira coisa a sumir, dando lugar a uma sensação de afogamento. A morte não é um clarão de luz no fim do túnel. É uma âncora que te puxa para baixo, para um breu onde o tempo não existe. E foi lá, nesse abismo sem bordas, que eu sonhei com ela.
Minha mãe.
Rosa estava do mesmo jeito que eu me lembrava antes da doença roubar sua força. O cabelo escuro, o sorriso triste, mas cheio de um amor que eu nunca soube retribuir em vida. No sonho, eu não conseguia tocá-la, mas a voz dela ecoava no escuro, mansa e perdoadora. Eu chorei. Chorei como o garoto quebrado que eu era, e fiz a promessa que estava entalada na minha garganta há anos. Prometi a ela que mudaria. Prometi que nunca mais seria o babaca que fazia a Sammy chorar. E prometi que protegeria o Eros, que cuidaria daquele sobrinho como se ele fosse um pedaço de mim, como se fosse sangue do nosso sangue. Ela sorriu, e de repente, o peso da âncora diminuiu.
Foi então que as vozes começaram a furar a escuridão. Primeiro, ouvi o choro da minha irmã. O som do desespero da Sammy me puxava para cima. Depois, a voz do Atlas, embargada, chamando pelo "Hermanito" que ele jurou odiar, mas que acabou virando família.
Ouvi a voz do Juan. O Snake. O maluco que decidiu me amar sem limites, que comprou minhas brigas e assumiu o papel de pai que o destino me negou. No escuro, eu só pensava em voltar para ter a chance de retribuir o amor desse velhote teimoso. Mas a voz que realmente aquecia o meu peito, a que servia como uma corda me puxando para fora do poço, era a dela. Da minha princesa. As palavras da Athena, sussurradas com cheiro de lágrimas e desespero, eram a única luz que eu queria seguir.
Eu não sei medir quanto tempo fiquei preso ali, oscilando entre o cansaço de me entregar à luz distante ou a força de puxar a corda e voltar para o caos. Mas quando eu finalmente consegui soltar o peso que me prendia, a escuridão rachou.
A luz branca do quarto queimou meus olhos. A dor voltou, aguda e rasgando meu peito, me lembrando que eu estava vivo. Quando consegui focar a visão, a primeira pessoa que vi foi ele. Juan. O pai que a vida, com toda a sua ironia, me deu. O alívio no rosto daquele homem perigoso foi a confirmação de que eu tinha voltado para o lugar certo. Havia outras pessoas no quarto, rostos conhecidos se movendo ao redor da cama, mas minha mente ignorou todos eles. Meus olhos buscavam apenas uma coisa. E ela não estava ali.
Até que a porta se abriu. O barulho do copo caindo no chão ecoou pelo quarto. E lá estava ela. Pálida, com olheiras profundas, mas ainda a mulher mais linda que eu já vi. Ela correu até mim, se jogando nos meus braços com um choro tão desesperado que fez meu peito doer mais do que os tiros. Envolvi meu braço nela, enterrando o rosto no pescoço que cheirava a café e saudade. Eu estava em casa.
O velhote se aproximou, o olhar mudando de pai aliviado para o Predador pronto para a guerra. Ele segurou minha mão. Eu sabia o que ele ia fazer. Nós dois sempre nos entendemos pelo olhar.
— Não se preocupe, hijo. — Ele disse, com aquela certeza mortal. — Papá volta.
Apertei a mão dele, dando minha bênção silenciosa. Ele saiu, levando a morte com ele.
A doutora Esther, com aquele jeito mandão que impunha respeito até no capeta, pediu para que todos dessem espaço. O quarto se esvaziou rapidamente, nos deixando em um silêncio quebrado apenas pelo bip das máquinas e pelos soluços da minha garota.
— Você me assustou... — Athena murmurou, o rosto molhado colado no meu. — Você me assustou muito, José.
— Eu achei que era o fim, princesa. — Confessei, a voz saindo como uma lixa seca. — Eu aceitei a morte lá no asfalto. O que mais doía não era morrer... era saber que eu ia te deixar.
Ela chorou mais alto, beijando meu rosto, minha testa, meus lábios com urgência.
— Eu sonhei com a minha mãe... — Falei baixinho, sentindo as lágrimas dela molharem minha pele. — Pedi desculpas. Prometi cuidar da Sammy e do Eros. Foi ela quem me mandou voltar pra você.
Athena se afastou um pouco para me olhar. Os olhos dela estavam vermelhos, exaustos.
— Eu não durmo há três dias. — Ela confessou, num sussurro frágil. — Eu não conseguia fechar os olhos com medo de você ir embora.
Ouvir aquilo me destruiu. Me movi na cama, ignorando a pontada infernal nas costelas e no abdômen, e abri espaço no colchão estreito.
— Deita aqui. — Pedi.

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