Capítulo 305 — O Dia da Caça
Noah Blake
Três dias. Setenta e duas horas de espera calculada. Para a maioria das pessoas, três dias passam num piscar de olhos. Para mim, acostumado a fechar negócios milionários e controlar empresas, a inércia foi uma tortura. Mas necessária. Nesse tempo, o mundo girou. Atlas saiu daquele buraco de presídio e voltou para os braços da Samantha. José lutou contra a morte naquela UTI e, teimoso como é, venceu o primeiro round. Dominic e Taylor descobriram que a vida encontrou um jeito e que um milagre cresce no ventre dela.
E eu... eu esperei. Esperei o momento certo para colocar as mãos no pescoço do meu pai e acabar com o legado maldito de Noel Blake de uma vez por todas. Não com a força bruta de um soldado, mas com a estratégia de quem tem tudo a perder.
Ainda estava perdido nesses pensamentos, olhando para o teto do quarto na penumbra da manhã, quando senti a cama se mover. Juliet se revirou, buscando meu calor. Mas não foi ela quem me deu bom dia primeiro. Senti o impacto suave, mas firme, no meu corpo. A barriga dela estava pressionada contra mim, e os gêmeos decidiram começar o dia com uma partida de futebol.
Sorri, virando-me de frente para ela. Juliet ainda estava com os olhos fechados, o rosto amassado de sono, linda de doer. Coloquei a mão sobre o ventre dela, sentindo os chutes vigorosos dos meus filhos.
— Bom dia, mon amour... — Sussurrei em francês, como ela me ensinou e dizia ser sexy. Depois beijei a ponta do nariz dela. — E bom dia para a dupla dinâmica aí dentro.
Juliet sorriu preguiçosa, abrindo um olho só. Aquele azul intenso, que sempre me lembrava o céu limpo, me encarou com carinho.
— Eles estão agitados hoje. Acho que sabem que o pai vai sair para trabalhar.
— Trabalhar... — Murmurei, descendo a mão da barriga para a cintura dela. Meus olhos verdes encontraram os azuis dela. — Digamos que vou resolver a pendência final da família Blake.
Juliet abriu os olhos completamente. Ela sabia que não era uma reunião de negócios comum. Ela sabia quem eu ia enfrentar. Em vez de demonstrar medo, ela se moveu, roçando a perna na minha, subindo a mão pelo meu peito nu.
— Então, antes de ir... — Ela mordiscou meu lábio inferior, puxando-me para cima dela. — Que tal gastar um pouco dessa energia aqui?
Não precisei de um segundo convite. Beijei-a com fome, com posse. Ali, nos braços da minha mulher, eu não era o homem que planejava a queda do próprio pai. Eu era apenas o Noah, o homem que amava desesperadamente a família que construiu.
Meia hora depois, eu já estava banhado e vestido com a calça social, terminando de abotoar a camisa branca na cozinha. O cheiro de café fresco e panquecas invadiu minhas narinas.
Olhei para a mesa e sorri. Laurinha estava sentada, com seus cinco anos de pura esperteza, segurando o garfo e a faca com uma destreza que sempre me impressionava. Nada de sujeira. Ela cortava seu pedaço de panqueca concentrada.
— Bom dia, papai. — Ela disse, levantando os olhos grandes para mim. — O senhor está muito elegante hoje. Vai ter reunião importante?
Senti meu coração derreter. Essa menina me desmontava com uma facilidade ridícula.
— Bom dia, minha princesa. — Caminhei até ela e beijei o topo de sua cabeça. — Sim. Uma reunião muito importante para garantir que ninguém nunca mais incomode a gente.
— Problemas chatos? — Ela franziu o narizinho.
— Os mais chatos de todos. — Confirmei. — Mas o papai resolve.
Olhei para o outro lado da mesa e vi uma cena que aqueceu meu peito. Heitor estava sentado ao lado do Norton. Meu irmão ria de algum desenho no tablet do Heitor enquanto comiam. Ver meu irmão, que meu pai maltratou e escondeu de mim por anos, rindo livremente ao lado do meu filho... aquilo valia qualquer guerra.
— Olha, Noah! — Norton apontou para a tela, animado. — O boneco caiu! Pof! — Ele disse com a boca cheia do bolo da Cece, que se tornou seu preferido.
Ri, servindo-me de café.
— Cuidado para não engasgar, pequeno Ton. — Ele assentiu e voltou a rir com o Heitor e devorar o bolo. — Não comam muito rápido. — Avisei para os dois.
— Papai... — Heitor começou. — O tio Norton pode jogar meu jogo novo no videogame?
Os dois me olharam com expectativa. Norton ainda tinha alguns gatilhos, e alguns jogos ainda mexiam com ele sem nem mesmo perceber. Olhei para a Ju, como quem busca uma resposta.
— Veremos, meu bem. — Minha mulher disse com carinho. — Depois escolhemos um jogo do qual o tio Norton goste e consiga jogar com você.
— Mas esse é legal, mamãe, tem luta. — Heitor insistiu.
— A Laurinha gosta muito de lutar. — Minha Princesa Xena falou, e eu ri.

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