Capítulo 304 — Não Só Nos Pensamentos
Esther Cross
Eu sou médica. Fiz um juramento de nunca desistir de uma vida, não importa quem seja o paciente. Mas com José... era diferente. Eu não estava lutando apenas por um coração que parou. Eu estava lutando pelo garoto que salvou a vida do meu melhor amigo. Eu sabia que, se não fosse pelo José, Atlas não estaria aqui hoje. E eu sabia o quanto esse menino era importante para a Athena. Mas, acima de tudo, enquanto eu fazia aquelas compressões, a imagem que não saía da minha cabeça era a do Juan. O desespero cru nos olhos daquele homem poderoso, o medo de perder o filho... aquilo me deu forças quando meus braços queriam falhar.
Depois que a estabilidade voltou, ou o mais próximo de estabilidade que conseguimos, Elijah praticamente me expulsou da UTI, dizendo que eu precisava descansar. Eu não queria ir. Meu instinto era ficar vigilante ao lado do leito. Mas meu corpo cobrou o preço. A adrenalina baixou e a exaustão bateu como um trem de carga.
Entrei no quarto de descanso e fui direto para o banheiro. Deixei a água quente cair sobre mim, lavando o suor frio, o cheiro de ozônio do desfibrilador e o sangue que manchava meus braços. Fechei os olhos e encostei a testa no azulejo frio. A cena da parada cardíaca voltava em flashes, mas logo era substituída pela presença do Juan. O cheiro dele, a força dele... ele não tinha saído dos meus pensamentos nas últimas horas.
Desliguei o chuveiro, me sequei rapidamente e vesti um conjunto limpo de roupa cirúrgica que ficava no armário. Respirei fundo, recompondo minha postura de "Doutora Cross", e abri a porta do banheiro para voltar ao quarto.
A cena me atingiu como um soco físico. Juan estava sentado na beirada da cama estreita. Os ombros largos estavam curvados, a cabeça baixa, as mãos cobrindo o rosto. O corpo dele tremia. Ele estava chorando. Não o choro contido de um homem que engole a dor, mas o choro convulsivo de uma criança que acabou de perder seu bem mais precioso.
Minha postura profissional se desfez. Eu não pensei. Apenas fui até ele. Sentei-me ao seu lado e toquei seu ombro. Juan levantou o rosto. Os olhos escuros estavam vermelhos, inchados, sem nenhuma defesa. Sem dizer uma palavra, sequei uma lágrima que escorria pela barba dele. E então, o abracei.
Juan desabou. Ele enterrou o rosto no meu pescoço e me apertou com força, como se eu fosse a única coisa sólida num mundo que desmoronava. O peso do dia, o medo da morte, a culpa... tudo saiu naquele choro que rasgava a alma. Me doía vê-lo assim. Doía de um jeito físico, no meu peito. E eu sabia o porquê: o amor dele pelo José não era biológico, não era imposto pelo sangue. Era escolha. E o amor escolhido às vezes dói mais, porque é um compromisso diário.
Ficamos assim por longos minutos, até que a respiração dele se acalmou. Quando nos separamos, ele me olhou nos olhos. Havia uma gratidão imensa ali.
— Obrigado... — Ele sussurrou, a voz rouca. — Por salvar o meu garoto. Eu nunca vou conseguir pagar o que você fez hoje.
Neguei com a cabeça, ajeitando a gola da camisa dele.
— Eu estava fazendo o meu trabalho, Juan. É o que eu faço.
Ele negou, segurando minha mão.
— Não. Eu vi. Eu vi como você lutou com a morte por ele. Você não desistiu quando qualquer outro teria parado. Foi mais do que trabalho, Esther.
Sorri fraco para ele.
— Já que diz, Senhor Sabe-Tudo...
Ele soltou uma risada curta, nasalada, e sorrimos juntos. Um momento de leveza no meio do caos.
— E obrigado por isso também. — Ele apontou para o espaço entre nós, referindo-se ao abraço, ao consolo.
Levei a mão ao rosto dele, secando os últimos vestígios de lágrimas com o polegar. A barba dele arranhou suavemente minha pele, causando um arrepio.
— Por nada.
Ficamos nos encarando. O silêncio não era constrangedor, era carregado de curiosidade. Eu queria entender aquele homem. Queria entender como o chefe de um cartel podia ter um coração tão grande.
— Me conta a história de vocês. — Pedi suavemente. — Como vocês se tornaram pai e filho?
Juan suspirou, virando o rosto para beijar a palma da minha mão. Ele parecia exausto, mas seus olhos brilharam com as memórias.
— Conto.
Ele se ajeitou na cama, sem soltar minha mão.
— Eu conhecia a Rosa. A mãe do José e da Samantha. — Ele começou, olhando para o nada. — Nunca disse isso a eles. Eu não fiz meu nome fazendo caridade, Esther, mas eu admirava aquela mulher por isso a ajudei.
Ele me contou sobre como Rosa saiu de um relacionamento abusivo. Um homem que batia nela e no José, mas que, para a nova família que constituiu depois, era um santo.

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