Capítulo 295 — A Certeza do Predador
Esther Cross
Eu já entrei em muitas salas de cirurgia. Já vi corpos destroçados por acidentes, vítimas de balas perdidas, pacientes terminais. Mas nada, absolutamente nada, me preparou para a fúria cega que me tomou quando as portas duplas se abriram.
O ar condicionado estava ligado, as luzes estavam acesas, mas a equipe médica estava parada. José estava deitado na maca central, pálido como cera, a camiseta rasgada e o peito coberto por compressas que já estavam ensopadas de sangue. E eles estavam lá... parados. Como se esperassem o monitor cardíaco anunciar o óbito para lavarem as mãos e irem para casa.
— O que diabos vocês estão fazendo parados? — Gritei, minha voz ecoando nas paredes estéreis. — Ele está sangrando!
— Doutora, o Diretor Salieri foi claro... — Um anestesista começou a balbuciar, recuando. — Não temos autorização para...
Elijah passou por mim como um furacão, empurrando o homem para o lado e checando os sinais vitais.
— A autorização sou eu. — Elijah rosnou. — Preparem a sucção e o bisturi. Agora!
A equipe hesitou. Eles olharam uns para os outros, o medo do chefe falando mais alto que o juramento de Hipócrates.
Foi quando a sombra atrás de nós se moveu. O homem que veio com o Juan, o tal "Sombra", como ouvi chamarem, fechou a porta com um chute e ergueu a arma preta e fosca, apontando para a cabeça do anestesista.
— Nova ordem. — A voz dele era desprovida de qualquer emoção. — Ou vocês salvam o garoto, ou eu pinto essas paredes brancas com o cérebro de vocês. Escolham.
A enfermeira que veio conosco, trêmula, gritou:
— Façam! Pelo amor de Deus, façam o que eles mandam! O Diretor já levou um tiro lá fora!
O pânico funcionou onde a ética falhou. A equipe se moveu. Eu e Elijah entramos na dança que conhecíamos tão bem.
— Projétil alojado próximo ao ventrículo esquerdo. — Elijah anunciou, as mãos firmes trabalhando dentro do peito do José. — Esther, clampeie a artéria agora!
— Clampeando. — Respondi, o foco absoluto tomando conta de mim. — Sucção! Mais sangue, precisamos de mais bolsas de O negativo!
Foram horas. Horas de tensão, de monitores apitando, de sangue e suor escorrendo por debaixo das máscaras. José lutou. Aquele garoto tinha uma vontade de viver que eu raramente vi. Três tiros. Um no abdômen, dois no tórax. Qualquer um deles poderia ter sido fatal, mas ele se recusava a ir.
Quando Elijah deu o último ponto e o monitor estabilizou num ritmo sinusal constante, eu finalmente soltei o ar. Olhei para a equipe do hospital. Eu não via colegas. Via cúmplices de assassinato.
— Saiam. — Ordenei, tirando as luvas ensanguentadas. — Todos vocês. Sumam da minha frente.
Eles saíram correndo. Virei-me para o Sombra, que ainda estava parado no canto, vigilante.
— Você fica. — Apontei para ele. — Não deixe ninguém, absolutamente ninguém dessa equipe tocar nele até que a gente consiga transferi-lo para a UTI e eu traga pessoal de confiança. Entendeu?
O homem assentiu, a arma voltando para o coldre, mas a mão permanecendo sobre ela.
Elijah e eu saímos da sala, exaustos, mas vitoriosos. Caminhamos até a sala de espera. O silêncio era pesado. Dominic, Atlas, Samantha, Noah, Athena... e ele. Juan Rivera. O "Snake". Ele estava encostado na parede, os braços cruzados, o terno impecável manchado com o sangue do “filho”. Os olhos escuros dele encontraram os meus no momento em que entrei.
— Elijah? — Atlas foi o primeiro a se levantar.
— Ele está vivo. — Elijah disse, direto.
O suspiro coletivo de alívio foi audível. Samantha começou a chorar, abraçada ao Atlas. Athena caiu sentada na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos.
— Foi difícil. — Elijah continuou, passando a mão no rosto cansado. — Três perfurações graves. Tivemos que reconstruir parte do lóbulo inferior do pulmão e reparar uma artéria. Mas ele é forte. Estável por enquanto. Tivemos um... incentivo extra do amigo do Senhor Rivera para garantir que a equipe colaborasse.
Todos olharam para o Juan. Ele não moveu um músculo, apenas assentiu para o Elijah.
Virei-me para ele.
— Pedi para o seu homem, o Sombra, ficar com o José lá dentro. — Avisei, minha voz profissional. — Não confio nessa equipe. Ele não sai de lá até que a UTI esteja preparada e eu tenha enfermeiros meus lá dentro.
Juan desencostou da parede e caminhou até mim. A presença dele era magnética, perigosa.
— Meus homens são seus homens, cariño. — Ele disse, a voz rouca e grave. — O que você precisar, eles farão.
Senti um arrepio subir pela espinha com o apelido, mas mantive a postura.

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