Capítulo 283 — Destinos Cruzados
Athena Wilson
A primeira coisa que senti foi o cheiro. Antisséptico, álcool e aquele aroma inconfundível de hospital que eu conhecia tão bem. Abri os olhos com dificuldade. A luz branca do teto parecia brilhar forte demais, ferindo minha retina. Pisquei várias vezes, tentando focar.
— Ei... devagar. — Uma voz conhecida e reconfortante soou ao meu lado.
Virei a cabeça e encontrei Noah sentado na poltrona, inclinado na minha direção. Ele parecia exausto, com a gravata frouxa e olheiras profundas, mas sorriu quando me viu acordada.
— Noah... — Minha voz saiu um sussurro áspero. — O que aconteceu?
— O seu corpo decidiu entrar em greve, garotinha. — Noah explicou, passando a mão no meu cabelo com carinho fraternal. — O médico disse que foi uma crise adrenal massiva. Com o seu fígado ainda se recuperando e o estresse do ataque... foi demais para você. Seu sistema não conseguiu processar a carga de cortisol e adrenalina. Você entrou em colapso.
Fechei os olhos, as lembranças do beco voltando em flashes. O homem me arrastando. A arma. O medo de morrer sem ver o José de novo.
— Mas você está bem agora. — Noah garantiu, segurando minha mão. — Estável e fora de perigo. Só precisa de repouso absoluto.
Respirei fundo, sentindo o alívio lavar meu corpo.
— O Elijah já está a caminho. — Noah continuou. — E a Esther está de plantão hoje. Ela acabou de atender a Sammy na obstetrícia e disse que logo vem dar uma olhada em você.
— A Sammy está bem? E o bebê? — Perguntei, alarmada.
— Estão ótimos. Foi só um susto. — Noah sorriu. — E parece que vem um menino por aí.
Sorri, sentindo uma lágrima escorrer. Um menino. Atlas ficaria louco de felicidade. Mas então, lembrei de outra coisa.
— Noah... o homem que me ajudou. No beco. Quem era ele?
Noah ficou sério por um momento. Ele olhou para a porta, depois voltou a me olhar.
— Aquele era o Snake. Juan Rivera.
O nome me atingiu como um soco. Snake. O chefe do tráfico. O homem que, na minha cabeça, sempre foi o responsável por colocar o José em perigo, por mantê-lo nessa vida errada. E, ironicamente, o homem que salvou a minha vida hoje.
A porta do quarto se abriu suavemente. Como se tivesse sido invocado, Snake entrou. Ele vestia um terno cinza impecável, sem nenhum sinal da violência do beco, exalando poder e perigo. No mesmo instante, o celular do Noah tocou no bolso. Ele olhou o visor e suspirou.
— É a Ju. Preciso atender. — Noah apertou minha mão. — Fico logo ali fora. O Senhor Rivera vai te fazer companhia por um minuto.
Noah saiu, trocando um aceno respeitoso com o Snake. Ficamos sozinhos. Eu e o homem que controlava o submundo de Nova York. Snake puxou a cadeira onde Noah estava e se sentou com uma elegância felina. Ele me observou por alguns segundos, os olhos escuros indecifráveis.
— Como se sente, mi niña? — Ele perguntou, a voz grave e calma.
— Viva. — Respondi, sincera. — Graças a você. Obrigada.
Snake dispensou o agradecimento com um gesto de mão.
— Ninguém toca na família. É a regra número um. — Ele se encostou na cadeira, cruzando as pernas. — E você é a garota do meu José. Isso te torna intocável.
Sorri fraco com a menção ao José.
— Você gosta muito dele, não gosta? — Perguntei, notando o tom diferente na voz dele quando falava do meu namorado.
Snake olhou para o nada, um sorriso nostálgico surgindo nos lábios.
— Eu conheci o José quando ele era apenas um moleque assustado e cheio de raiva. — Snake começou a contar. — Eu olhei para ele e vi a mim mesmo. A história dele é a minha, senhorita Wilson. Pai abusivo, alcoólatra. Uma mãe guerreira que fazia de tudo para proteger o filho. A dor dele... a fome de justiça... eu conhecia tudo aquilo.

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