Capítulo 254 — Irmandade na Selva
Atlas Wilson
Acordei com o som estridente de uma sirene que parecia perfurar meu cérebro. Pulei do beliche duro, o coração disparado, a mão indo instintivamente para a faca improvisada que o Dom me deu, escondida no colchão. Corri para a grade, tentando ver o corredor.
— Ei, Wilson! — uma voz rouca chamou da cela à esquerda.
Virei o rosto, colando a bochecha nas barras frias para tentar enxergar. Havia um homem branco, cheio de tatuagens, segurando um espelho de mão para me ver. Não o reconheci de imediato.
— Quem é? — perguntei, tenso.
— Sou o Jack. Amigo do Hermanito — ele respondeu. — Relaxa, garoto. O Gigante está aqui comigo.
— E eu tô na frente, Cabeludo — uma voz veio da cela do outro lado do corredor. Olhei e vi um homem moreno e magro, fazendo um sinal de positivo. — Sou o Fumaça, lembra de mim?
Soltei o ar, aliviado. Eu não estava sozinho.
— O que está acontecendo? — perguntei, gritando para superar a sirene.
— Rebelião na Ala D. E parece que o pau quebrou na administração — Jack explicou. — Os pavilhões entraram em lockdown, mas a Ala C está liberada para o café. O Snake mexeu os pauzinhos lá fora.
Pouco depois, a sirene parou e as celas se abriram. Segui o fluxo, colando nos três homens que pareciam ser minha escolta pessoal. No refeitório, o clima era estranho. Havia uma tensão elétrica no ar. Sentamos numa mesa afastada.
— E o José? — perguntei assim que sentamos, a preocupação me consumindo. Eu não o via desde que fora levado para a solitária. — Vocês sabem dele? Que horas o tiram de lá?
Os três trocaram olhares pesados. Gigante suspirou e largou o garfo.
— O Hermanito teve problemas na solitária, Wilson — Jack falou baixo.
— Que tipo de problemas? — Senti meu estômago gelar. — O que fizeram com ele?
— Tentaram armar pra cima dele. O Caolho comprou a entrada — Fumaça contou, sem rodeios. — Foi feio. Cinco contra um.
— Meu Deus... — Levei as mãos à cabeça, o desespero tomando conta. — Eu preciso vê-lo. Ele está ferido? Está vivo? Eu tenho que ir até lá!
Fiz menção de levantar, mas a mão enorme do Gigante segurou meu ombro, me obrigando a sentar.
— Calma, garoto. Senta aí — Gigante ordenou, firme, mas sem agressividade. — O Snake cuidou de tudo.
— Como assim?
— Santino, um dos braços do Snake, mandou o recado pra gente há pouco — Jack explicou. — O Snake entrou lá. Tirou o José daquela merda antes que o pior acontecesse. Ele está ferido, sim, mas está vivo. Foi levado para o hospital penitenciário sob escolta pesada.
— Ele vai ficar bem? — perguntei, sentindo um nó na garganta.
— Vaso ruim não quebra, Wilson — Fumaça sorriu de canto. — O Snake garantiu que ele volta. E se o Snake garante, tá garantido. Agora come. Você vai precisar de energia.
Tentei comer, um pouco mais calmo, sabendo que meu cunhado estava sendo cuidado. Mas a paz durou pouco. A porta do refeitório se abriu com violência. Guardas de choque entraram, batendo cassetetes nos escudos.
— TODO MUNDO PRA CELA! AGORA! RECOLHER! — o comandante gritou.
Uma confusão se instalou. Os caras se entreolharam, tensos. Fomos empurrados de volta para o bloco. De volta à cela, tranquei os dentes, frustrado. Fiquei grudado na grade, observando a movimentação frenética dos guardas. Um deles passou fazendo a ronda, parecendo nervoso, olhando para trás o tempo todo.
— Kyle! — Fumaça chamou da cela da frente. — Diz aí, cara. O que tá acontecendo?
O guarda ignorou e continuou andando. Quando passou pela minha cela, Gigante, que estava na cela ao lado, tentou a sorte.
— Fortalece aí, Kyle. Garanto um final de semana naquele parque que su niña gosta — Gigante fez uma pausa dramática. — Não é mesmo, Wilson?
Levei um segundo para entender a deixa, mas fui rápido.
— Garanto vários finais de semana — falei alto e claro. — All inclusive. Disney, se ela quiser.
Ouvi o Gigante rir baixo. Kyle parou. A menção à filha o fez hesitar. Ele olhou para os lados, verificando se estava sozinho.
— Aí, Kyle. Lembra que o cunhadinho do Hermanito é milionário — Jack reforçou.
O guarda se aproximou da minha grade, falando baixo, quase num sussurro.
— O Comissário está vindo. E a Corregedoria também. Dixon caiu.
Corregedoria. Dominic. Senti uma pontada de esperança.
— Fora? Ou apagado? — a voz de Jack soou séria na cela ao lado.
— Apagado — o guarda respondeu seco.
Uma sirene diferente tocou, mais aguda e persistente.
— RECUEM! — Kyle gritou, afastando-se da grade às pressas.

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