Capítulo 253 — Obrigado, Juan.
José Alves
A primeira coisa que senti foi o cheiro. Não era o mofo da solitária, nem o fedor de suor e medo. Era cheiro de éter, desinfetante e limpeza exagerada. Abri os olhos com dificuldade, piscando contra a luz fluorescente branca que queimava minha retina.
Tentei me mexer e um gemido escapou dos meus lábios. Parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim, dado ré e passado de novo. Minhas costelas latejavam, minha cabeça pulsava e meu ombro parecia estar fora do lugar, embora enfaixado.
— Buenos días, bela adormecida.
A voz grave e debochada veio do lado da cama. Virei o rosto devagar e encontrei Snake sentado na poltrona de visitante, girando um anel de ouro no dedo, impecável em seu terno caro, como se estivesse numa reunião de negócios e não num hospital penitenciário.
As memórias voltaram como um soco. A escuridão. O medo paralisante do lugar fechado. O Caolho e seus homens. A faca na minha mão. Eu prestes a cravá-la no meu peito... e a voz dele.
— Snake... — Minha voz saiu rouca, arranhada. — Você...
— Eu disse que tiraria você de lá. — Ele sorriu de lado, mas seus olhos me analisavam com uma preocupação que ele tentava esconder. — Achou que ia se livrar de mim tão fácil, cabrón?
Tentei sorrir, mas doeu.
— Achei que eu ia virar churrasquinho no inferno antes de te ver de novo.
— O diabo não te quer lá, Hermanito. Ele sabe que você ia tentar tomar o trono dele. — Snake riu, me servindo um copo de água com um canudo. — Bebe. Você parece um peixe fora d'água.
Bebi com avidez. Enquanto a água descia, Snake ficou sério.
— O Caolho cantou, José. Antes de eu... cuidar dele.
Franzi a testa.
— Cuidar?
— Digamos que ele não vai mais olhar para ninguém. Nem andar. — Snake disse com frieza, ajeitando o punho da camisa. — Ele me contou quem pagou. Foi o Natanael Blake.
Arregalei os olhos.
— O tio do Noah?
— Ele mesmo. O maldito pagou o Diretor Dixon para liberar sua cela e facilitar o ataque.
A menção ao Dixon fez meu sangue ferver, mas Snake levantou a mão, me interrompendo.
— Dixon já era. Eu abri o Pavilhão D para ele. Digamos que, a essa hora, os homens do Scar estão tendo uma "conversa amigável" com ele no meio de uma rebelião que eu ajudei a financiar.
— Rebelião?! — Tentei me levantar num pulo, ignorando a dor aguda nas costelas. — O Atlas! Snake, o Atlas está sozinho na cela! Se tem uma rebelião...
Snake levantou rápido e colocou a mão no meu peito, me empurrando suavemente de volta para o travesseiro.
— Cálmate, hombre! — Ele ordenou. — Fica quieto ou vai estourar seus pontos.
— Você não entende! Ele não sabe se defender num motim!
— Eu sei. Por isso a Ala C está trancada. O Gigante e os rapazes dele, estão na porta da cela do Wilson. Ninguém entra, ninguém sai. Ele está seguro na C, José. Eu garanti isso.
Respirei fundo, o coração ainda disparado, mas confiando na palavra do Juan. Se ele disse que garantiu, estava garantido.
— Mas... — Snake suspirou, sentando-se novamente. — O problema é o depois. Tirei o Dixon da jogada, mas o Drácula ainda está por aí. E eu não sei quem mais aquele sanguessuga comprou dentro desse sistema podre. O pátio ainda é um risco.
A porta se abriu e uma médica entrou, olhando para a prancheta. Ela era jovem, bonita, com uma expressão de quem não levava desaforo para casa.
— Vejo que o paciente acordou e já está agitado. — Ela comentou, checando o monitor cardíaco. — Você tem sorte, Senhor Alves. Muita sorte.
— Sorte é meu nome do meio, Doutora. — resmunguei.
— Não houve fraturas completas, apenas fissuras nas costelas e muitas contusões. O ombro foi recolocado no lugar. Você foi medicado para dor e inflamação. — Ela me olhou nos olhos. — Mas, infelizmente, a regra é clara. Sem risco de morte iminente, você precisa voltar para a unidade prisional.
Assenti, resignado.
— Eu entendo.
Snake, que até então estava quieto, inclinou-se para frente, abrindo aquele sorriso de predador que usava no cassino. Olhou descaradamente para a mão esquerda da médica.
— Sem aliança. Interessante. — Ele comentou, como quem não quer nada. — Doutora, tem certeza que ele está apto? Porque eu posso contratar uma enfermeira particular excelente... ou talvez a senhora queira fazer um atendimento home care? Pago o triplo do seu salário.
A médica nem piscou. Continuou anotando na prancheta.
— Meu salário paga minhas contas e minha paz de espírito, senhor. E eu não faço visitas domiciliares a amigos de detentos, por mais bem vestidos que sejam.

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