Capítulo 247 — Reis do Submundo
Noah Blake
O carro blindado parou em frente a um galpão decrépito numa rua mal iluminada do Brooklyn. Por fora, o lugar parecia um depósito de lixo esquecido por Deus, com pichações antigas e janelas quebradas cobertas com tábuas.
— É aqui? — perguntei, ajeitando o terno.
— Bem-vindo ao covil, Blake. — Chris respondeu, destravando a porta.
Gayer desceu primeiro, ao lado de Declan. Saímos para a calçada úmida, e o cheiro de lixo invadiu minhas narinas. Mas assim que o segurança na porta de aço reconheceu o Chris, a postura dele mudou de "cão de guarda" para "soldado prestando continência".
A porta pesada se abriu, e o contraste foi um soco no estômago. Se por fora era o lixo do Brooklyn, por dentro era Las Vegas. Lustres de cristal, mesas de poker de mogno, roletas girando, garçonetes em vestidos de lantejoulas servindo bebidas caras. O som das fichas batendo e do jazz suave abafava o barulho da rua.
Caminhei olhando em volta. Meus olhos treinados em Wall Street logo captaram os detalhes. Ali não havia apenas viciados e criminosos locais. Vi um homem que reconheci de um conselho administrativo de uma multinacional de tecnologia. Vi outro que frequentava o mesmo clube de golfe que meu pai. A hipocrisia da elite de Nova York estava toda ali, apostando dinheiro sujo e cheirando pó em mesas de veludo.
Mas o que mais me impressionou foi o efeito "Boss". Ou melhor, Christopher Lawson. Eu conheço o Chris há anos. Ele é um dos meus melhores amigos, mesmo que tenhamos passado um tempo afastado por um motivo idiota. Ele nunca deixou de ser meu amigo, e eu sempre soube da vida que ele levava.
Mas ver isso... era diferente. Conforme avançávamos pelo salão em direção à área VIP, a multidão se abria. Não era apenas respeito; era temor reverente. Ele caminhava com uma calma letal, e as pessoas se afastavam como se ele fosse Moisés abrindo o Mar Vermelho. Ninguém ousava encostar nele. Ninguém ousava sustentar o olhar. Naquele momento, entendi que Chris não brincava de ser chefe. Ele era a realeza daquele submundo.
Subimos uma escada de ferro até um escritório envidraçado que dava para todo o salão. A porta se abriu e entramos.
Eu esperava encontrar um marginal estereotipado. Um bandido de quinta categoria cheio de correntes de ouro e dentes podres. A realidade me atingiu com força.
Snake estava sentado atrás de uma mesa imponente. Ele aparentava ter uns quarenta e poucos anos, vestia um terno de grife que custava mais que o carro do Declan, e seu cabelo estava perfeitamente penteado para trás. A única coisa que denunciava sua origem eram as tatuagens que subiam pelo pescoço, saindo do colarinho da camisa. Tatuagens tribais, muito parecidas com as que o José tinha. Como se pertencessem à mesma irmandade sombria.
O homem, que ao telefone sempre parecia debochado e relaxado, pessoalmente emanava uma aura de poder que rivalizava com a do Chris ou do Dominic. Ele sabia o seu lugar na cadeia alimentar, e sabia que estava no topo.
— Senhores. — Snake se levantou — Bienvenidos.
— Snake. — Chris cumprimentou com um aceno curto de cabeça. — Esses são Noah Blake, Declan Reed e nosso chefe de segurança Gayer.
Snake estendeu a mão para mim. O aperto foi firme.
— O homem do dinheiro. É um prazer, Senhor Blake. O Hermanito fala muito bem do senhor, na verdade ele fala bem de todos vocês. — Snake apontou o dedo para cada um de nós. — Mi niño tem o sonho reprimido de fazer parte dessa grande — ele balançou as mãos. — Família... Eu respeito isso nele, mesmo não entendendo essa necessidade de ser aceito por vocês. Mas… — Snake se sentou apontando os lugares à sua frente para nós. — Não foi para falar do Hermanito que vieram até aqui.
— Exato. — respondi seco, sentando no lugar que ele indicou. — Estamos aqui para pegar o David. E para entender que porra está acontecendo.
Snake se ajeitou em sua cadeira, cruzando as mãos sobre a mesa e um sorriso ladino nos lábios.
— Vamos direto ao ponto então. — Ele girou o anel no dedo. — O David cometeu o erro de achar que poderia se esconder na minha zona de fronteira, perto de Jersey. Ele tentou comprar passagem segura com alguns dos meus homens, oferecendo migalhas.
— Pelo visto ele ainda não sabe que a cabeça dele vale dez milhões de dólares. — Chris comentou, a voz perigosa.
— Eu não sou do tipo que entrega meus negócios assim, Boss, devia saber disso. Mandei gente para ficar de olho mas não contei o motivo, só dei a ordem. — Snake disse encarando o Chris. — Meus homens já o localizaram. Ele está num motel de beira de estrada na saída 4, achando que vai pegar um barco amanhã cedo. O lugar está cercado. Ninguém entra, ninguém sai, a menos que eu mande.
— Eu quero ele. — Falei, sentindo a raiva pulsar. — Vivo, de preferência. Mas se ele resistir...
— Os dez milhões compram a lealdade dos meus homens, Senhor Blake. Eles vão entregar o rato para vocês. — Snake garantiu. — Não tenho apreço por traidores. David traiu o Wilson que é alguém importante para mi Hermanito... então ele é lixo.
Assenti. O destino do David estava selado. Mas eu tinha outras perguntas. Perguntas que me assombravam desde que descobri o envolvimento da minha família nisso.
— Dominic descobriu que foi o meu tio, Natanael Blake, quem pagou o chefe de polícia para antecipar a transferência do Atlas. — Fui direto ao ponto, encarando Snake. — Você tem alguma ligação com ele? O "Drácula" é o Natanael?
Snake soltou uma risada nasalada, balançando a cabeça como se a pergunta fosse absurda.
— Quem me procurou primeiro, alguns meses atrás, foi o Cyrus. — Snake fez o sinal da cruz rapidamente. — Que Dios lo mantenga en el infierno. Eu não gostava daquele cretino. Era sujo demais, até para os meus padrões.

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