Capítulo 245 — Desperta o Pior
José Alves
Eu sabia exatamente como as coisas funcionavam aqui dentro. Conhecia o ritmo, o cheiro, as regras não ditas. Mas, principalmente, eu sabia o que esse lugar despertava em mim. Era como se houvesse uma chave enferrujada no fundo da minha mente que, ao ser girada, libertava algo que eu levei anos tentando acorrentar.
Mesmo querendo mudar lá fora, mesmo querendo ser apenas o José trabalhador, o irmão da Sammy, o namorado da Athena... aqui, eu não tinha escolha. Aqui, eu tinha que ser a porra do “Hermanito”. O latino de sangue quente, a lenda do pavilhão C, o cara que não leva desaforo para a cela e que prefere morrer a abaixar a cabeça.
A adrenalina ainda bombeava nas minhas veias, quente e violenta, fazendo minhas mãos tremerem levemente. Respirei fundo, tentando acalmar o animal dentro de mim, e olhei para o Atlas. O que vi nos olhos dele me atingiu mais forte que um soco.
Não havia admiração ou gratidão. Havia confusão. Havia medo. E o pior de tudo... falta de reconhecimento. Ele me olhava como se estivesse vendo um estranho, um monstro que vestia a pele do cunhado dele. Aquele olhar doeu na minha alma, porque confirmava meu maior medo: de que eu nunca deixaria de ser isso.
Dei um passo em sua direção, tentando dizer algo, explicar que eu não tinha escolha, mas o estrondo metálico das grades se abrindo e o tropel de botas pesadas cortaram o momento. Os guardas entraram gritando, cassetetes em punho.
Spencer foi o primeiro a chegar na nossa mesa, afastando os curiosos com empurrões brutos. Ele olhou para a poça de sangue, depois para mim.
— Belo jeito de mostrar que chegou, Hermanito. — ele disse, balançando a cabeça com uma mistura de decepção e expectativa.
Virei de costas para ele imediatamente, cruzando as mãos atrás do corpo, já esperando as algemas. Eu conhecia o protocolo. Solitária. Dias no escuro.
— Gosto de entradas triunfantes, Spencer. Você sabe disso. — respondi, sentindo o metal gelado prender meus pulsos.
Olhei por cima do ombro para o guarda e depois para o Atlas, que estava parado, segurando o braço cortado, parecendo perdido no caos.
— Leva ele também. — falei baixo para o Spencer. — Meu cunhado está machucado, e isso aqui é coisa nossa.
Atlas franziu a testa, me olhando confuso. Ele não entendeu. "Coisa nossa" era o código. Significava que a briga foi interna, um acerto de contas entre nós, ou que estávamos juntos na merda. Se ele ficasse ali sozinho na Ala C agora, sem mim, depois do que aconteceu... ele seria retalhado antes do amanhecer. Eu precisava garantir que ele fosse levado comigo, mesmo que fosse para o buraco.
Spencer entendeu o recado na hora. Ele fez um sinal rápido com a cabeça para o outro guarda, que foi direto para o Atlas, puxando os braços dele para trás sem delicadeza.
— O que... José? — Atlas tentou protestar, atônito.
— Tá tudo bem, Atlas. Fica quieto. Vamos para a solitária. — avisei, cortando qualquer tentativa dele de argumentar com a lei. Ali dentro, argumentar só te rendia ossos quebrados.
Saímos do refeitório escoltados. O silêncio tenso de antes se quebrou. Gritos, batidas de canecas nas mesas, vaias e alguns aplausos ecoaram.
— É isso aí, Hermanito!
— Rei da Ala C!
— Assassino!
Uns me amavam, viam em mim um líder. Outros queriam me ver apodrecer e morrer engasgado com o meu próprio sangue. E eu... eu, no fundo, só queria ir embora desse inferno e voltar para os braços da minha princesa.
Caminhamos pelos corredores cinzentos, o eco das correntes nos tornozelos marcando o ritmo. Mas, à medida que andávamos, percebi algo errado. Aquele não era o caminho das celas de isolamento. Eu conhecia bem o caminho para o buraco; conhecia cada curva, cada porta, cada cheiro de umidade. Estávamos indo para a ala administrativa.
— Para onde estamos indo? — perguntei, tenso.
— Entra aí, Hermanito. — Spencer ordenou, parando na frente de uma porta de madeira pesada. A sala do Diretor.
Ele abriu a porta e nos empurrou para dentro. O ar condicionado estava ligado, um contraste gritante com o calor sufocante do pavilhão.
— O Diretor Dixon já foi avisado e ligou para o seu supervisor. — Spencer explicou, fechando a porta e ficando de guarda na frente dela. — Já estou sabendo que você está aqui como informante, protegido do FBI. Mas acho que os federais não vão gostar nada de saber que, na sua primeira hora aqui, você já mandou um detento para a enfermaria em estado crítico e outro direto para o necrotério.
Senti um peso no estômago, mas não deixei transparecer. Necrotério. Eu tinha matado o cara?
— O Agente Costello vai olhar as câmeras. — falei com frieza, sentando na cadeira em frente à mesa vazia do diretor. — Vai ver que foi legítima defesa. Eram dois armados contra nós. Eu tô de boa.
Spencer balançou a cabeça, descrente da minha calma, antes de olhar para o Atlas.

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